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Sorte, um caso de estupro (Alice Sebold)


Alice Sebold cresceu no subúrbio de Filadélfia e estudou na Great Valley High School, na Pensilvânia. Em seguida, matriculou-se na Universidade de Syracuse e quando estava terminando seu primeiro ano, foi estuprada um dia a noite pelo jovem negro Gregory Madison, enquanto voltava para casa, em um parque perto do campus. 

Alice passou por momentos difíceis ao lado desse jovem e teve que se submeter a coisas humilhantes pelo medo de morrer. Ela era virgem e perdera a virgindade com esse estupro! 

Alice volta para a Pensilvânia no dia 9 de maio de 1981. Quando retorna à Universidade de Syracuse no outono, um dia ela vê o réu na rua, e ele se aproxima dela e diz: "Ei, menina, eu não conheço você de algum lugar?" Ela corre e chama a polícia. Alice já tinha entrado na justiça contra Madison.

No dia 18 de novembro, Gail (Promotora) redigiu um memorando para os arquivos. Ela o pôs no correio no dia vinte e três. “Não há dúvida de que isso foi um estupro. A vítima era virgem e o hímen estava rompido em dois lugares. Os resultados dos exames laboratoriais revelam sêmen, e o relatório médico revela contusões e lacerações”. 

Foram feitos exames. A “amostra de pelos sabidamente pertencentes a Gregory Madison” e os pelos pubianos negróides retirados de Alice Sebold, em maio de 1981" já haviam sido comparados. O laboratório descobriu que, nos dezessete pontos de comparação microscópica, os pelos haviam correspondido em todos os dezessete. Havia uma impressão digital parcial na arma (Faca) encontrada na cena do crime, mas os detalhes dos sulcos eram insuficientes para estabelecer uma comparação. O laboratório informa que eles não podem determinar o tipo sanguíneo a partir do sêmen porque este está manchado demais com o sangue dela. 

Alice voltou para casa, na Pensilvânia, para o Dia de Ação de Graças. Um dia depois de voltar para Syracuse de ônibus, havia uma carta esperando por ela no alojamento: “Em relação ao seu pedido", dizia um trecho dela, "esta é para informá-la que o réu acima indicado por uma legenda foi condenado pelo grande júri”. 

O julgamento parecia iminente. Poderia acontecer a qualquer momento. No dia 4 de dezembro enquanto Alice estava em aula Madison deu entrada em seu recurso junto ao Juiz da Corte Suprema WalterT. Gorman. Madison se dizia inocente da acusação por oito crimes. Uma audiência pré-julgamento foi marcada para o dia 9 de dezembro. Paquette, que representava Madison, reconheceu uma condenação por pequeno roubo "em algum lugar do passado". O Estado não sabia o bastante para contradizê-lo, e a ficha juvenil de Madison não podia ser considerada. 

Quando Gorman pediu ao promotor público assistente Plochocki, que representava o Estado se ele tinha algo a dizer sobre fiança, Plochocki disse: “Juiz, eu não tenho o arquivo”! Assim, a fiança foi estabelecida em cinco mil dólares. Equivocadamente, Alice se alegrara imaginando que seu agressor passaria o Natal e o Ano Novo na cadeia. 

A cidade de Syracuse marcou o julgamento no tribunal para começar no dia 17 de maio. 

O advogado de Madison, Paquette, tentou a todo custo com muitas e muitas perguntas com pormenores detalhes deixar Alice Sebold confusa. Mas ela soube se sobressair muito bem porque simplesmente falava a verdade. 

E o julgamento se estendeu até 13 de julho de 1982 quando no tribunal com a presença do promotor público de Alice (Mastine), Paquette (Advogado de defesa de Madison) e Madison, Gregory Madison foi sentenciado. Era a pena máxima para estupro e atentado violento ao pudor: de oito anos e quatro meses a vinte e cinco anos. As sentenças maiores, junto com as menores provenientes das quatro acusações restantes, correriam simultaneamente. 

Após a formatura de Alice em Syracuse, Sebold foi para a Universidade de Houston, no Texas para o ensino de pós-graduação, o qual ela não completou, devido ao envolvimento com drogas que ela tivera. Então, ela se mudou para Manhattan e lá viveu por 10 anos, onde realizou diversos trabalhos, inclusive como garçonete e tentou prosseguir a sua carreira de escritora. Sebold queria escrever a sua história através da poesia, mas as tentativas fracassavam. 

Sebold deixou a cidade e se mudou para o Sul da Califórnia, onde se tornou zeladora de uma colônia de artes, vivendo em uma cabana na floresta, sem eletricidade. Ela escrevia com o auxílio de uma lâmpada a gás. Novamente Sebold iniciou nova pós-graduação, desta vez na Universidade da Califórnia. Lá ela começou a escrever sua história. 

Depois de "Sorte", Sebold publicou, em 2002, o best-seller "Uma vida interrompida". O livro é um romance sobre uma menina de 14 anos que é assassinada pelo vizinho. O personagem principal conta sua história do céu, olhando para baixo quando sua família tenta lidar com a morte dela e enquanto seu assassino escapa da polícia. Este romance foi adaptado para um filme de 2009, de Peter Jackson, chamado "Um olhar do Paraíso". Enquanto Alice trabalhava em "Uma vida interrompida", ela conheceu o marido Glen David Gold, na faculdade, que enfim se tornou o homem que mais amou entre outros que ela tinha conhecido.

Sonhos D’ouro (José de Alencar)


Ricardo era um rapaz pobre e que saíra de São Paulo onde morava sua mãe, irmã e sua noiva Bela para ir à Corte tentar conquistar o suficiente para dar uma vida digna a elas. E foi no Rio de Janeiro, mais precisamente, na Tijuca, que teve seu primeiro encontro com Guida. Ele estava deitado na relva sonhando com as facilidades que a riqueza traria e beijava uma pequena flor que colhera e apelidara de sonhos d’ouro. Nessas circunstâncias foi que Guida o encontrou, enquanto fazia um passeio com sua dama de companhia e o Sr. Benicio, que tinha uma alma servil e trabalhava para ela. 

Depois deste primeiro encontro, Ricardo veio saber a partir de seu amigo Fábio, e noivo de sua irmã Luísa, que a moça era filha do “comendador” Soares e era uma das mais ricas e belas moças da corte. Ricardo inicialmente sabendo das travessuras da menina a julgou caprichosa. No decorrer dos dias sempre em passeios no Galgo, o cavalo que dividia em um revezamento com Fábio, encontrava-se casualmente com Guida. 

Ricardo morava com Fábio e D. Joaquina, mãe de seu amigo. Era costume dela, mesmo pobre, ajudar uma família que de vez em vez precisava de socorro. Foi graças a essas boas ações que um dia Ricardo, ganhando um dinheiro extra, resolveu ajudar a família, desencarregando D. Joaquina. Lá ele estava com seu caderno onde pintava e na página aberta estava uma aquarela em referência ao seu primeiro encontro com Guida. Nesse dia Guida também veio visitar essa família e inocentemente viu de relance o desenho de Ricardo. 

Guida era de fato linda e rica, era também caprichosa, mas era uma alma muito boa, gentil e brincalhona. Prova de sua natureza caprichosa foi o desejo insistente que lhe nasceu de descobrir porque Ricardo beijava tão ardentemente aquela flor do seu primeiro encontro, queria ver o desenho que ele fizera e queria possuir o cavalo do rapaz, o Galgo. 

Estando em um grupo em um passeio na Tijuca, Guida viu a pequena flor e se precipitou para colhê-la, porém era uma ação perigosa, e Ricardo que observava toda a cena, acabando de chegar àquele ponto, se adiantou e colheu as flores. Nogueira, um dos rapazes do grupo, cumprimentou a ele, pois tinham se formado juntos. 

Mais tarde, durante o almoço na casa de Soares, Guida convenceu Nogueira de convidar Ricardo e também o amigo do rapaz para irem jantar ali naquele dia. Ricardo já tinha negado o convite feito através de um dos trabalhadores da casa, não querendo se envolver com uma sociedade a qual não pertencia. Nogueira foi então atrás do colega, porém encontrou apenas Fábio e esse garantiu que ele e o amigo estariam lá. 

Ricardo só foi porque Fábio disse que havia dado sua palavra de honra. Assim passaram a noite muito bem, melhor Fábio que não tinha acanhamento em se “infiltrar” em meio as pessoas. No dia seguinte, lá estavam reunidos novamente para um passeio, Ricardo dessa vez foi temendo que negando o convite Fábio aceitasse e agisse de forma pior como vinha agindo, sem pudor algum. 

No passeio Ricardo concedeu que Guida fosse no Galgo. Durante todo o dia Ricardo a esteve observando, pois, o cavalo era muito afoito e um acidente era fácil. Observava também a Flávio que não parava de flertar com D. Guilhermina. Foi em um momento desses que Guida partiu em uma corrida no Galgo; Ricardo instantaneamente tentou alcançá-la, acabando com ela voltando em seu cavalo e ele no dele, e ela falando em como ele suporá mal se tivesse acreditado que ela esperava que ele a socorresse como heróis em romances. 

Ricardo já fadigado articulou um modo de escapar do resto do passeio. Porém, na sua tentativa de fuga, acabou seguindo apenas ele, Guida e o S. Benicio que insistia em cobrir-lhes com o guarda-sol. Enfim todos chegaram à casa de Soares e todos notaram como Ricardo e Guida chegaram conversando e rindo. Durante a noite todos já supunham que ele se juntava aos outros três concorrentes a marido e que ele era o escolhido. 

Assim, o visconde que participa da intimidade da casa, já se precipitou ao escritório de Ricardo para lhe propor uma negociação no casamento. Ele lhe ajudaria financiando o namoro e depois já casado Ricardo lhe prestaria favores. Mas a reação dele foi pôr o visconde pelas golas fora do seu escritório. Mais tarde Fábio contou tal fato a Guida e esta pediu ao pai que retirasse o visconde de seu círculo de amizade. 

Passou-se um bom tempo, e Guida completou seus dezenove anos, também nesse tempo Ricardo tinha avançado em seu escritório e já trabalhava com casos que lhe rendiam mais e tinha alugado um quarto. Guida, assim como combinara com o pai, deveria escolher um noivo e apresentá-lo ao pai e este, por sua vez, iria ver se concedia ou não o casamento pois não teriam um ano para ver qual dos dois se enganava sobre o candidato, Guida ou ele. 

Foi assim que em uma manhã, Soares conversou com sua filha, falou-lhe que era preciso que escolhesse um noivo, pois ele estava envelhecendo e não podia deixá-la solteira, uma vez que agora já muitos se aproximavam pelo dinheiro que eles possuíam e quando ela estivesse sozinha maior seria o número de especuladores. Assim Guida prometeu em um mês achar o rapaz. 

Sendo assim ela foi ter com sua avó e pediu que ela a ajudasse no encontro com o rapaz correto para ser seu noivo. Foi desse modo que Sr. Benecio chegou com um bilhete para Ricardo em que ele era chamado a casa da vó de Guida para resolver uma questão de advocacia. Chegando lá, Guida o recebeu afirmando que a vó estava a procura dos papéis. Assim, em conversa na sala enquanto a dama de companhia de Guida lia, a menina falou a Ricardo sobre um romance que lia, mas na verdade contava sua própria história. Afirmava que a heroína devia se casar agora que já tinha chegado na idade combinada com o pai, mas nunca homem algum tinha despertado seu coração, por isso seu pai escolhera um que julgava reto e gentil e pediu que ele se cassasse com ela e que assim vivessem em conveniência e quem sabe o amor surgiria.

Em seguida perguntou o que faria Ricardo se fosse tal homem, ao que ele respondeu que não poderia ser tal, pois ele já era comprometido e assim contou sua história de vida e de como estava na corte a fim de juntar vinte contos para quitar as dívidas da hipoteca e poder casar-se e dar uma vida ao menos digna para a esposa, para a mãe, e para poder pagar o dote da irmã. Depois disto Guida chamou a vó e elas encenaram o motivo de limites de terra pelo qual chamaram Ricardo ali. 

Foi em casa e no seu quarto que Guida viu surgir-lhe de repente o amor, amava Ricardo, mas não podia tê-lo, pois tal era desde a infância comprometido com a prima. Assim, a menina passou a viver como aqueles que sofrem do amor. 

Dias depois o pai, notando a diferença na filha, veio falar-lhe. A menina revelou tudo e também a vontade de conceder os vinte contos para fazer a felicidade dele. O pai cedeu à vontade da filha e também esqueceu a necessidade de casá-la. Assim Guida pediu a D. Guilhermina que se aproveitando do flerte que mantinha com Fábio descobrisse um modo de quitar as dívidas de Ricardo sem que esse recusasse tal ato. 

Foi deste modo que Guida, ouvindo a conversa de Fábio e D. Guilhermina, descobriu que a Bela havia rompido com Ricardo, que estava desolado. O fato era que em São Paulo, Luísa recebeu uma carta em que Fábio lhe contava como Ricardo não via o amor da mais rica e bela moça da corte por ser voltado ao amor por Bela, esta que lera a carta também. Porém na casa de Bela um amigo contava em uma carta que recebera que na corte Ricardo era um dos candidatos mais promissores a um rico casamento. Assim Bela, vendo que tal casamento era melhor para Ricardo, rompeu tudo com ele e aceitou se casar com um primo de escolha do pai. 

Ricardo tendo recebido a carta de Bela procurou Guida, os dois conversaram e quando ela leu a carta viu o que realmente se passava com a rival, que abandonava seu amor pela sorte dele. Aconselhou que Ricardo fosse a São Paulo e lhe explicasse todos os fatos, porém ele só escrevera uma carta bem fria e assim se confirmou as suspeitas de Bela, que se casou com outro. 

Saído a notícia do casamento de Bela, Ricardo ficou desolado e por muito tempo ele e Guida não se viram. Um dia enfim se encontraram no local de seu primeiro encontro. Guida, porém, estava com a saúde arrasada e perdera toda a vida de pouco tempo atrás. Ali os dois conversando relembraram o primeiro encontro foram colher a florzinha que ilustrara a cena. Guida desfaleceu nos braços de Ricardo e se pôs a chorar. Ele temia a morte da menina e a pediu que vivesse. Quando Guida questionou porque razão deveria viver, Ricardo afirmou que vivesse por ele. 

Foi assim que o casamento dos dois se arranjava em alguns dias. Mrs. Trowshy, a dama de companhia de Guida, se animava com a ida para Europa junto com a sua senhora. 

Sr. Benicio trabalhava no casamento. Fábio casara-se. Nogueira conformara-se com a advocacia administrativa. Guimarães foi para a Europa gastar a herança. Bastos continuava um bom encomendador.

Seminário dos ratos (Lygia Fagundes Telles)


Lygia Fagundes Telles, em 14 histórias curtas, vasculha a mente e a alma de pessoas comuns que resolvem dramas pessoais, conflitos filosóficos e existenciais. 

As tramas insólitas com finais abertos e indefinidos são a confirmação de que, na vida humana, nada é definitivo e explícito. 

São as formigas que montam o esqueleto de um anão; são os velhinhos que se vingam da vitalidade do rapaz envenenando-lhe a comida; é o maluco que dá uma consulta a outro, fingindo-se de psiquiatra; são os ratos, que expulsam os participantes de um seminário e assumem os destinos da nação... 

A crítica social, a ironia dos costumes, o humor e o ridículo das situações se fundem com uma análise do comportamento e da alma. 

Um jovem casal que se transforma em passarinho e borboleta, um tigre que se humaniza convivem nesta fantástica coleção com o despertar da paixão de uma menina pelo primo botânico e com amor obsessivo de Pombas Enamoradas pelo Antenor. 

Não faltam regressões catárticas no "Noturno Amarelo" e em "A Sauna" e a presença da morte no sonho que se realiza no dia seguinte. 

Mesmo quando é a personagem mulher que abre sua alma, Lygia F. Telles perscruta o íntimo do ser humano, quer seja a solteirona frustrada, e de sexualidade mal resolvida em "Senhor Diretor", quer seja a esquizofrenia do rapaz que reencarna a irmã em "WM", quer seja a alegria de pessoas miseráveis que se esquecem de si para se alegrarem com o ganhador de uma fortuna na televisão, em "O X do problema". 

Enfim o enfoque temático e linguagem narrativa traduzem de cada conto não só a condição social mas também o modo de pensar das personagens.

Se eu Ficar (Gayle Forman)


Mia, é uma adolescente que é muito normal, mas tem os pais mais anormais do mundo. Seus pais são roqueiros e super modernos, e ela ama música clássica e toca violoncelo. E seu namorado também ama rock e ainda toca em uma banca de rock. Apesar dessas diferenças ela se dá muito bem com sua família e ama cada um deles. 

Até que um acidente acontece e nesse acidente seus pais e irmão morrem e ela fica em estado de coma, mas ainda sim via tudo fora do corpo, ela vê as pessoas em volta orando para ela voltar. 

“Se Eu Ficar” conta a história de Mia, uma adolescente talentosa, tímida e que ama muito sua família. Ela é violoncelista e está a um passo de entrar em Julliard, tem uma melhor amiga sensacional, um namorado rock star e tudo parece normal e certo em sua vida, até um dia fatídico em que ela e sua família sofrem um acidente de carro. 

Mia perde seus pais e fica em coma em estado gravíssimo. No entanto, a maior surpresa é quando ela percebe que está fora do seu corpo e consegue ver tudo o que acontece ao seu redor, inclusive o seu próprio corpo sendo levado urgentemente para o hospital. Assim, ela acompanha, como se estive separada por um vidro do mundo real, os acontecimentos que se desenrolam ao trágico acidente, a aglomeração de parentes que vem lhe dar apoio, Adam (seu namorado), que tenta desesperadamente vê-la e Kim (sua melhor amiga) que mesmo Mia estando em coma lhe dá palavras de conforto. É lindo o cuidado e o amor que Mia tem pelo irmão e muito bonito o amor do namorado dela para com ela. 

Anestesiada e suspensa entre a vida e a morte, tentando entender o que está acontecendo ao seu redor, Mia tem algumas horas para reavaliar sua vida, considerar seu futuro e decidir se quer desistir de tudo ou lutar para continuar viva. Ela passa a ser expectadora da própria vida no leito do hospital. 

Não é nada fácil lidar com a morte. Você simplesmente não tem como descobrir quais serão seus últimos momentos de felicidade, aqueles que antecedem uma tragédia ou uma descoberta aterradora. “Eu percebo agora que morrer é fácil. Viver é difícil.” 

É um livro que nos faz refletir e avaliar o valor da vida. Nos mostra que nada é garantido neste mundo. Em um momento podemos estar felizes ao lado das pessoas que amamos e no minuto seguinte perdê-las.

Singularidades de uma rapariga loura (Eça de Queirós)


O narrador tratava-se de um viajante que chegado a uma hospedaria durante o jantar iniciou uma conversa com um homem que mais tarde veio ser apresentado como Marcário. O viajante perguntou a ele se ele era da Vila Real e tendo uma resposta afirmativa comentou que de lá vinham as mais belas mulheres. Marcário, em seguida, se calou e perdeu o sorriso se retirando da mesa.
Depois disso o viajante foi para seu quarto, o de número 3, que por coincidência era o mesmo de Marcário e foi ali na escuridão da noite que ele contou ao viajante a sua história.
Marcário trabalhava com seu tio Francisco, um caixeiro. Ele era um homem honesto, fiel ao seu trabalho, vivia uma vida simples e casta, mas que o satisfazia. Foi então que um dia viu no peitoral da janela defronte a do seu escritório uma linda mulher, pálida, vestida de luto e com lindos cabelos negros. Pensou nela o resto do dia e no dia seguinte, até que viu no peitoril da janela uma moça jovem, em seus vinte anos, diferente da outra que aparentava os quarenta anos, e esta era dona de também lindos cabelos loiros. Logo a julgou filha da mulher de luto.
Não demorou para que Marcário se apaixonasse pela vizinha. E assim já não era o mesmo, sempre desfrutando dos nervos que a paixão causava. Em um dia, as vizinhas, mãe e filha, como ele acreditava, foram à loja que ficava no andar térreo do prédio de seu tio. As duas procuravam por casimiras pretas, e a única justificativa para duas mulheres estarem procurando tal produto era o interesse em se aproximar de Marcário. Assim alegremente ele desceu e falou a elas sobre como aquelas casimiras eram de qualidade. Depois elas olharam alguns lenços da Índia.
Mais tarde, o tio Francisco disse ao sobrinho que lenços da Índia tinham sumido.
Seguidamente Marcário viu na rua um amigo, este retirou o chapéu de palha que levava para cumprimentar as duas senhoras que estavam no peitoril. Imediatamente Marcário foi ter com ele, perguntou-lhe se as conhecia, se eram boa gente, de boa família e se tinha meio de ele as conhecer melhor.
Logo Marcário começou a freqüentar o mesmo serão que elas, e em seguida a casa das duas. Foi em uma dessas reuniões que ele e Luisa – este era o nome da loira – se aproximaram. Em uma delas, um dos convidados exibia uma jóia que adquirira e a balançava no ar encantando Luisa. Em dado momento, a peça caiu no colo da menina, mas ninguém a encontrou.
Ao longo desses fatos, Marcário decidiu casar-se com Luisa. O motivo foi um beijo puro que deram. Pediu ao tio licença pra casar, surpreendentemente esse não permitiu e como o sobrinho insistia no casamento, Francisco o despediu como empregado e familiar. Assim Marcário, decidido, partiu da casa do tio levando seus poucos pertences e crente de que emprego não lhe faltaria, pois era bom empregado.
Começou em uma hospedagem, mas logo se mudou de lá. Não conseguia emprego! Os que conheciam seu serviço não o contratavam porque isso os levaria a romper as relações com o tio Francisco. Sendo assim, Marcário foi vendendo seus poucos bens até chegar ao dito estado de miséria. Por essa razão, ele passou a ver Luisa apenas durante a noite, porque assim ela não via o estado de pobreza que suas roupas demonstravam.
Foi então que o seu amigo do chapéu de palha lhe fez uma proposta: servir no Cabo Frio. Falou com Luisa pedindo que ela o esperasse e assim partiu, passou por muitas coisas muitas vezes desagradáveis, mas finalmente voltou e com fortuna feita. Assim, ele pediu a mão de Luisa e a mãe dela o aceitou de braços abertos.
Porém, o amigo do chapéu de palha lhe pediu uma alta quantia de dinheiro emprestado, e como foi ele quem o ajudou em outros tempos, Marcário se tornou fiador. Essa situação não perdurou, pois o tal amigo fugiu com uma mulher e o negócio, assim como Marcário, faliu.

Assim, com o casamento adiado, Marcário foi falar com o tio mais uma vez (em outro momento ele já tinha ido falar com ele). O emprego e tudo mais estavam ali disponíveis, mas ele só poderia voltar se fosse ficar solteiro. Então Marcário veio procurar o tio pela última vez: para dizer adeus. Surpreendentemente o tio o aceitou de volta e também o casamento. Os bons tempos voltaram e o casamento foi marcado para um ano depois.
Faltando seis meses para Marcário se casar, ele e Luisa foram comprar o anel de noivado, demoraram a escolher, mas por fim decidiram-se. Marcário voltaria no outro dia para buscar o anel que precisava ser ajustado. Saíram alegremente da joalheria, porém o dono da loja os chamou de volta e disse que Marcário tinha se esquecido de pagar, não o anel que buscaria no outro dia, mas o que Luisa estava levando com ela.
Em poucos segundos, Luisa, assustada, entregou o anel ao noivo que pagou o preço dele, afirmando que ela tinha só se enganado e que não fora nada, mas bastou que os dois ficassem sozinhos para que ele, ali mesmo na rua, desmanchasse o noivado: não se casaria com uma ladra.
E esse foi o desfecho da história contada por Marcário ao viajante.

Senhora (José de Alencar)


 

Emília é irmã do Sr Lemos e vivem juntos. Emília se apaixonou por Pedro Camargo, um médico pobre, mas a família não o aceitava. Então Emília fugiu com seu amado, rompendo com sua família. Emília se casou secretamente com Pedro Camargo, que era filho natural de um rico fazendeiro, Lourenço de Sousa Camargo, que ao saber do paradeiro do filho o manda buscar sem saber da união. Este volta para a fazenda paterna, mas não tendo coragem para enfrentá-lo, envia cartas amorosas à esposa e dinheiro para seu sustento. Após um ano de separação, o casal se reencontra, nascendo o primeiro filho, Emílio, que o pai só conhece aos 2 meses de idade. Passam a viver algumas semanas juntos e outras separados, temendo que o velho descubra tudo e não mais os ajude. Nasce a segunda filha, Aurélia.
Emília nada pode revelar sobre seu casamento e, por isso, leva uma vida suspeita e obscura. Apesar de tudo, Pedro sustenta a família e educa bem os filhos. Após doze anos de convivência com a esposa, Pedro sofre um golpe cruel. O pai lhe apresenta uma noiva de 15 anos, filha de um rico fazendeiro. O moço não querendo contar que já era casado então foge e se esconde em um rancho e aí acaba morrendo de febre cerebral, deixando 3 contos de réis a um tropeiro para ser levado a Emília, sem mencionar a dor pela qual está passando. Assim, faz o homem e Emília perde para sempre a alegria de viver.
Aurélia, na infância, leva vida modesta em companhia da mãe e do irmão, criatura fraca que é sempre ajudada, em seu trabalho de caixeiro, pela moça, sobrecarregada de tarefas. Morto o irmão, a mãe começa a preocupar-se com o destino da filha, falando-lhe constantemente sobre a necessidade de se casar e de se colocar à janela, pois bonita como é, logo arranjaria pretendentes. Apesar de desgostosa, Aurélia atende aos apelos. O tio Lemos (irmão de sua mãe) logo corre à janela, agindo como candidato, mas a moça quer reatar laços com a família materna. O tio deixa-lhe um bilhete galanteador e a menina rompe de vez a amizade.
O próximo a se candidatar é Fernando Rodrigues de Seixas, recém chegado do Rio de Janeiro que, conquistando a atenção de Aurélia, passa a freqüentar-lhe a casa, sentindo-se constrangido em namorar moça tão pobre. Há, ainda, Eduardo Abreu, rapaz rico e de boa família que encantado com a beleza da menina, pede sua mão em casamento, mas Aurélia ama Seixas. A mãe resolve perguntar ao eleito sobre suas intenções em relação à filha, mas sabendo do interesse de Abreu pela garota, Fernando prefere perdê-la a fazê-la sofrer com sua pobreza. Porém sabendo da recusa de Aurélia com Abreu, Seixas volta e a pede em casamento.
O senhor Lemos resolve interferir nos acontecimentos e ao encontrar o pai de Adelaide, o Sr. Manuel Tavares do Amaral lhe fala sobre as vantagens do casamento da moça, já prometida a outro, com Seixas. O pai não gosta do pretendente da filha, Dr Torquato Ribeiro, porque pobre, não tem muito futuro pela frente. Passa a se interessar por Seixas e por isso o apresenta em casa. O rapaz começa a calcular as vantagens do casamento com Adelaide e, por fim, quando o chefe da casa lhe oferece o dote de 30 contos de réis, Seixas o aceita imediatamente. Então Aurélia recebe uma carta anônima dizendo que Fernando a trocou pelo dote de 30 contos de réis.
A moça fica infeliz, mas, por outro lado, reencontra o avô, Lourenço de Souza Camargo (pai do seu pai) que apareceu lhe procurando e que decidira reconhecer mãe e filha, pois descobrira cartas e fotos da família nas coisas do filho que morreu. Desafortunadamente, tanto a mãe quanto o avô logo morrem.
Um comerciante visita Aurélia e lhe traz o testamento de Lourenço, reconhecendo-a como herdeira universal, lhe apresentando uma lista de seus bens e explicando sobre os negócios pendentes. Os parentes, que jamais se aproximaram dela, tão logo sabem sobre a herança, correm para vê-la, inclusive o tio Lemos, munido de uma nomeação para ser seu tutor. Mas Aurélia sabe muito bem conduzir os negócios, sobretudo graças ao aprendizado adquirido com o trabalho do irmão. A menina desamparada passa a morar com a parenta afastada, D.Firmina Mascarenhas.
Aurélia pensa em recusar a tutela, mas logo acha interessante ter um tutor que domina. Aceita-o sob a condição de jamais viver com a família que tanto desprezara a mãe.
Aurélia Camargo, moça que era pobre, então, torna-se rica graças à herança do avô, recebida aos l8 anos, quando é apresentada à sociedade fluminense. Encanta a todos com sua esplendorosa beleza. Aurélia é quem governa a casa como bem entende. A velha senhora é uma espécie de "mãe de encomenda", forma de não chocar aqueles que se opõem à emancipação feminina.
Sua beleza desperta o interesse de muitos rapazes, sabendo, sagazmente, os riscos que corre. Revoltava-se, às vezes, contra sua riqueza por reconhecer nela um dos motivos para tantos admiradores. Por isso, a cada um atribui um valor em contos de réis, fato que os rapazes conhecem e os diverte diante de tanta franqueza da moça.
Aurélia tendo como tutor o irmão de sua mãe, o Senhor Lemos, vez por outra, o convocava para resolver problemas sem importância. Numa determinada manhã ele foi  chamado para discutir sobre o casamento da jovem. Surpreendentemente, ela lhe apresenta um negócio a ser entabulado para a obtenção do consentimento do futuro marido. Faz referência a Manuel Tavares do Amaral, empregado da alfândega, que como já disse acima, tinha ajustado  o casamento da filha Adelaide por um dote de trinta contos com o Seixas.
Então solicita ao senhor Lemos que a auxilie a desmanchar esse casamento, indicando que a moça deve se casar com o Dr Torquato Ribeiro, verdadeiro amor de Adelaide, repelido por ser pobre. Pede ao tutor para dar 50 contos de réis, (retirados da herança de Aurélia), como dote a Ribeiro, porque deseja se casar com o moço prometido à Adelaide; este a quem ela já havia namorado. O tio deveria procurar o moço escolhido e lhe propor 100 contos de réis e casamento com separação de bens, mantendo absoluto segredo sobre quem faz a proposta.
Fernando Rodrigues de Seixas, é um rapaz de poucos recursos desde a infância. Vivia com a mãe e duas irmãs que o veneravam. Órfão aos 18 anos, abandonou o terceiro ano de Direito em São Paulo, ocupando o cargo de jornalista, tendo certo sucesso na imprensa fluminense. Em sociedade apresentava-se como um moço rico.
O velho Lemos foi procurar Seixas que de pronto se negou a aceitar o acordo, entretanto, dias mais tarde, foi encontrá-lo para aceitar a proposta, desde que lhe fossem adiantados vinte contos de réis, sem dizer em que os aplicaria. O adiantamento é aceito. Seixas se decide pelo acordo porque gastou as economias maternas e agora tinha que dar à irmã um dote para seu casamento. Então, decide-se, confirmando seu propósito com Lemos.
Após receber os vinte contos de réis, Seixas é apresentado à futura noiva. Pelo trajeto, vai sufocado pela humilhação a que se submete, contudo Lemos avisa que a moça nada sabe sobre o acordo. Quando viu quem era a moça ele se assustou. Dias mais tarde, oficializou o pedido de casamento, prontamente, aceito por Aurélia Camargo. A sociedade fluminense fica assombrada com a notícia, não podendo crer que com tantos admiradores ricos a escolha tenha recaído sobre um marido sem fortuna.
A celebração é modesta com poucos convidados e os noivos se sentem felizes. Porém, quando ficam a sós, a moça se revela de forma cruel, mostrando-lhe desprezo e mencionando o acordo de cem contos de réis. O casamento com Fernando Seixas é acertado pelos 100 contos de réis, revelados por ela na noite de núpcias, quando expõe todo seu desgosto para com o comportamento de traição anterior do rapaz, quando a trocou por Adelaide. Seixas, diante da fúria da noiva, afirma não amá-la, só se interessando pelo dote e, portanto, está pronto para atender suas ordens. Aflita, angustiada e surpresa, ordena que ele se retire. Passam a viver sob a aparência de um casal feliz, mas se martirizam com ironias e sarcasmos, levando vidas separadas quando estão longe do convívio social.
Dr. Torquato Ribeiro se casa com Adelaide.

A Restituição
Passado alguns meses, Fernando fica sabendo que tem direito a 20 contos de réis, resultantes de um negócio feito quando solteiro. Então pede um encontro reservado com a esposa e lhe restitui com juros os 100 contos de réis, contando-lhe sobre as circunstâncias que o levaram a ter aceitado o seu dote para o casamento.
Aurélia, então, surpresa, aceita a restituição, mas quando ele se despede dela, dizendo que nunca mais se veriam e que iria embora, Aurélia ajoelha-se e  declara seu amor, dizendo que o perdoa, pedindo que ele a ame. E como última tentativa e prova de que não o enganava, ela mostra-lhe seu testamento, que fez logo após o casamento, passando-lhe tudo o que tinha.
E por fim, eles se beijam e o casamento se consume, finalmente!

Características:

  • José de Alencar critica, em muitos trechos do romance, o modo como o dinheiro influía na sociedade da época. Utilizando para o fazê-lo, a sua personagem principal: Aurélia. A narração do livro cita por várias vezes como Aurélia recorre ao pensamento de que todos a rodeavam por causa do dinheiro que possuía.
  • Características românticas apresentadas pelos personagens e pela obra: Publicado em 1875, "Senhora" traz características essencialmente românticas, como se pode ver pelo núcleo de seu enredo simples, típico dos dramas de amor do Romantismo: Aurélia Camargo, filha de uma pobre costureira, apaixonou-se por Fernando Seixas, a quem namorou. Este, porém, desfez a relação, movido pela vontade se se casar com uma moça rica, Adelaide Amaral.
  •  Costumes típicos apresentados na obra: À época, o Segundo Reinado, vigora o regime de casamento dotal, em que o pai da noiva (ou, no caso, ela mesma) deveria dar um dote ao futuro marido.
  • O livro se divide em partes:
a)      O preço: seria o valor do dote do casamento
b)      Quitação: o pagamento do dote
c)      Posse: a posse de Aurélia sobre Seixas
d)     Resgate: a restituição do dote (dinheiro) para Aurélia.

Se Houver Amanhã (Sidney Sheldon)


Sidney Sheldon tem uma forma única de criar um personagem marcante e nos transportar para dentro da história, e com este empolgante romance nos leva às aventuras de Tracy Whitney.
Tracy é uma jovem idealista, trabalha em um banco e está noiva e grávida do socialite Charles Stanhope III. Custa a crer na sorte que tem e está radiante de felicidade.
Mas o suicídio de sua mãe muda todo o seu destino: (ao descobrir que a mãe se matou por não suportar perder todo o patrimônio que o marido lhes deixara) para Joe Romano - integrante da máfia - Tracy resolve tirar satisfações com o mesmo, e se vê enredada numa armação criminosa que a leva a ser presa e condenada por roubo e tentativa de homicídio.
Na prisão ela tenta falar com o noivo, que a despreza e abandona sem nem tentar ouvi-la e entender o que aconteceu.
Na penitenciária ela se vê cercada das criminosas mais violentas que jamais imaginou existir e, ao ser estuprada e violentada por elas, perde o bebê que estava esperando, mas começa a enxergar sua nova realidade: o mundo que conhecia não existia mais, a mãe maravilhosa e carinhosa estava morta e o noivo perfeito não a queria mais, e se quisesse sobreviver para se vingar daqueles que a haviam colocado ali, teria que mostrar a todos um outro lado que ela não tinha. Conseguiu impor sua posição dentro da cela e ganhou a amizade e o respeito da chefe de suas companheiras. A ajuda desta chefe, a negra Ernestine Littlechap, a protegeria também dos assédios da chefe de um grupo rival: Big Bertha, uma homossexual grandalhona e agressiva.
Seus dias na penitenciária são para ela um tempo de aprendizado para quando conseguir fugir colocar em prática seus planos de vingança. A oportunidade de fuga surge quando ela trabalha como babá da filha do diretor do presídio, e consegue formular um plano para escapar no caminhão da lavanderia. A rotina da criança é de dormir após o almoço, e é neste horário que ela planeja escapar. Mas no dia marcado há visitas na casa - o Governador e o Comitê de Reforma Penitenciária - e a mãe da menina muda os hábitos, mandando ela sair com a criança. Sem saber o que fazer, pede a alguém para olhar a criança e sai correndo, mas a menina chama a sua atenção ao ficar na borda de um lago artificial e cai nas águas profundas. Ela volta para salvar a criança e perde a chance de fugir. Mas em reconhecimento a sua coragem e apego à criança, ela ganha através do governador o perdão e a liberdade.
A primeira providência de Tracy é se vingar das pessoas que armaram contra ela: Joe Romano, o chefão Anthony Orsatti, o advogado Perry Pope, o Juíz Henry Lawrence e seu ex-noivo Charles Stanhope III.
Uma vez de volta ao mundo civilizado e tendo satisfeito seu desejo de vingança, ela tenta recomeçar sua vida e, inocentemente quer ter seu antigo emprego de volta. Não consegue, é claro, e não consegue outros porque sua ficha criminal a precede e ninguém quer se arriscar a lhe dar emprego. Uma presidiária havia lhe indicado uma pessoa, um dono de uma joalheria que ajuda ex-presidiárias. Tracy o procura, mas o que ele propõe é que ela se torne uma ladra profissional. Ela recusa e volta a tentar um emprego honesto. Quando não tem mais saída nem recursos financeiros ela volta à joalheria e aceita o trabalho.
Daí por diante sua vida se transforma completamente. Tracy se torna expert em disfarces e passa a circular nos meios mais sofisticados, conhecendo as pessoas mais ricas e importantes de vários lugares do mundo. Se apresentando como nobre européia ou esposa de magnatas do petróleo, ou como viúva rica e desamparada e mil outros disfarces engenhosos, ela consegue entrar em lugares fabulosos e cometer roubos fantásticos.
Nesse submundo do crime, Jeff Stevens, de má índole, é seu rival constante, e se torna uma disputa entre eles saber o que o outro planeja e chegar na dianteira, e após um confronto na tentativa de um grande roubo ao Museu do Prado, eles se descobrem apaixonados. Trabalham juntos em outro grande desafio e resolvem se assumir e mudar de vida.
Mas será que após todo esse tempo eles conseguem viver de outra maneira?
Tracy consegue se vingar das pessoas que a prejudicaram e muda o rumo da sua vida, mas o que ela tem agora nem de longe lembra o que seria sua vida antes da prisão. Ela vive fugindo e se escondendo, é conhecida mundialmente e bem sucedida financeiramente longe do que poderia um dia sequer imaginar.
Tracy se impôs à condição de só aceitar um trabalho quando tivesse certeza de que a pessoa atingida fosse  tão criminosa quanto ela e que isso não prejudicasse outras pessoas.
Para ela e Jeff o amanhã poderia trazer uma aventura irresistível, viagens para lugares exóticos, fortunas difíceis de calcular. Como abrir mão desta vida? Só o amanhã dirá.


Sinhá-moça (Maria Dezonne Pacheco Fernandes)


A história se passa em 1886, dois anos antes da promulgação da Lei Áurea, numa pequena vila do interior paulista, Araruna.
Conta a história de amor de Sinhá-Moça, filha do coronel Ferreira e também barão de Araruna, homem inflexível e escravocrata, pelo jovem Dr. Rodolfo Fontes, advogado recem-chegado da capital onde fora estudar, um ativo militante abolicionista e republicano, que usa uma máscara para libertar escravos e corteja sua amada sem que ela saiba ser este mascarado seu amado.
A partir de personagens como o delegado covarde, o feitor cruel, o médico humanitário procura mostrar o retrato de uma época determinante para a história do Brasil. A autora participou da elaboração do roteiro do filme homônimo, que se transformou num dos maiores sucessos do cinema brasileiro. Sinhá-Moça também foi adaptado com sucesso para a televisão, em 1986 e 2006.
Por tamanho sucesso foi feita duas adaptações deste livro para a TV em forma de novela. Ana do Véu uma personagem da novela fascinou o público nas duas versões, lançando para a celebridade suas intérpretes.
Este livro aborda a ética, e a pluralidade cultural, além de ser uma referência histórica para iniciantes. Conta a transição da lavoura de café que usava a mão -de - obra escrava e a chegada dos primeiros imigrantes vindo da Europa para substituí-los. Mostra a luta dos abolicionistas para encerrar de vez com esta vergonha que foram os trezentos anos de escravidão no Brasil. Ressalta a importância da imprensa na divulgação das idéias abolicionistas.
Publicado em: dezembro 29, 2008

São Bernardo (Graciliano Ramos)

  • São Bernardo é um romance de confissão, aparentado com Dom Casmurro. Narrado em primeira pessoa, é curto, direto e bruto. Poucos, como ele, serão tão honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e esta força parece provir da sólida unidade que o autor lhe imprimiu. As personagens e as coisas surgem como meras modalidades do narrador, Paulo Honório. ante cuja personalidade dominadora se amesquinham, frágeis e distantes. Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é, mais que um estudo analítico, verdadeira patogênese desse sentimento.
  • De guia de cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, ignorando escrúpulos e visando atingir o seu alvo por todos os meios.
  • O teu fito na vida foi apossar-me das terras de São Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular.
  • É um homem que supervaloriza a propriedade, tipo de gente para quem o mundo se divide em dois grupos: os eleitos que têm e respeitam os bens materiais, e os réprobos, que não os têm ou não os respeitam.
  • Daí resultam uma ética, uma estética e até uma metafísica, De fato, não é à toa que um homem transforma o ganho em verdadeira ascese, em questão definitiva de vida ou morte.
  • “A princípio o capital se desviava de mim, e persegui-lo sem descanso, viajando pelo sertão, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operaçôes embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações de armas engatilhadas”.
  • O próximo lhe interessa na medida em que está ligado aos seus negócios, e na ética dos números não há lugar para o luxo do desinteresse.
  • “(...) esperneei nas unhas do Pereira, que me levou músculo e nervo, aquele malvado. Depois, vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga”.
  • “(...) levei Padilha para a cidade, vigiei-o durante a noite. No outro dia cedo, ele meteu o rabo na ratoeira e assinou a escritura. Deduzi a dívida, os juros, o preço da casa, e entreguei-lhe sete contos quinhentos e cinqüenta mil-réis. Não tive remorsos”.
  • Uma só vez age em obediência ao sentimento de gratidão, recolhendo a negra que o alimentou na infância e que ama com uma espécie de ternura de que é capaz. Ainda assim, porém, as relações afetivas só se concretizam numericamente:
  • “A velha Margarida mora aqui em São Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu”.
  • Com o mesmo utilitarismo estreito analisa a sua conduta: “A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que me deram lucro”.
  • Até quando escreve, a sua estética é a da poupança: “É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço”.
  • A aquisição e a transformação da Fazenda São Bernardo levam, todavia, o instinto de posse de Paulo Honório a arraigar-se num sentimento patriarcal, naturalmente desenvolvido - tanto é verdade que o seu modo de agir depende em boa parte das relações com as coisas.
  • “Amanheci um dia pensando em casar Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar (...) O que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de São Bernardo”.
  • A partir desse momento, instalam-se na sua vida os fermentos de negação do instinto de propriedade, cujo desenvolvimento constitui o drama do livro.
  • Com efeito, o patriarca à busca de herdeiro termina apaixonado, casando-se por amor; e o amor em vez de dar a demão final na luta pelos bens, revela-se, de início, incompatível com eles. Para adaptar-se, teria sido necessária a Paulo Honório uma reeducação afetiva impossível à sua mentalidade, formada e deformada. O sentimento de propriedade, acarretando o de segregação dos homens, o distancia das pessoas, porque origina o medo de perder o que já conquistou, e o seu convívio com outros resume-se em relações de mera concorrência. O amor, pelo contrário, unifica e totaliza. Madalena, a mulher - humanitária, mão-aberta -, não concebe a vida como uma relação de possuidor e coisa possuída. Daí o horror com que Paulo Honório vai percebendo a sua fraternidade, o sentimento, para ele incompreensível, de participar na vida dos desvalidos.
  • Nessa luta, porém, não há vencedores. Acuada, vencida, Madalena suicida-se. Paulo Honório, vitorioso, de uma maneira que não esperava e não queria, sente, no admirável capítulo XXXVI, a inutilidade do violento esforço da sua vida:
  • “Sou um homem arrasado (...) Nada disso me traria satisfação (...) Quanto às vantagens restantes — casas, terras, móveis, semoventes, consideração de políticos, etc. - é preciso convir em que tudo está fora de mim. Julgo que me desnorteei numa errada (...) Estraguei minha vida estupidamente (...) Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo”.
  • Vencendo a vida, porém, foi de certo modo vencido por ela; imprimindo-lhe a sua marca, ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer. Nesse estudo patológico de um sentimento, Graciliano Ramos - juntando mais um dado à psicologia materialista esposada em Caetés - parte do pressuposto de que a maneira de viver condiciona o modo de ter e de pensar:
  • “Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também uma conseqüência da profissão”.
  • “Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes”.
  • O seu caso é dramático, porque há fissuras de sensibilidade que a vida não conseguiu tapar, e por elas penetra uma ternura engasgada e insuficiente, incompatível com a dureza em que se encouraçou. Daí a angústia desse homem, cujos sentimentos eram relativamente bons, quando escapavam à sua tirania, ao descobrir em si mesmo estranhas sementes de moleza e lirismo, que é preciso abafar a todo custo.
  • “Emoções indefiníveis me agitam — inquietação terrível, desejo de tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é antes desespero, raiva, um peso enorme no coração”.
Enredo

  • Paulo Honório, homem dotado de vontade férrea e da ambição de se tornar fazendeiro, depois de atingir seu objetivo, propõe-se a escrever um livro, contando a sua vida, de guia de cego a senhor da Fazenda São Bernardo.
  • Movido mais por uma imposição psicológica, Paulo Honório procura uma justificativa para o desmoronamento da sua vida e do seu fracassado casamento com Madalena, que se suicida.
  • No livro, ao mesmo tempo em que faz o levantarnento existencial de uma vida dedicada à construção da Fazenda São Bernardo, Graciliano Ramos desnuda o complexo destrutivo que Paulo Honório representa: “Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber por quê! Comer e dormir como um porco! Como um pomo! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo”?

Análise da obra

  • Publicado em 1934, São Bernardo está entre o que de melhor o romance brasileiro produziu. Num primeiro instante pode até parecer uma história de vitória de seu narrador-protagonista, Paulo Honório, que foi de guia de cego na infância até se tornar latifundiário do interior de Alagoas. No entanto, a questão principal é muito mais aguda e amarga.
  • Para alcançar sua ascensão social, o narrador paga um preço altíssimo, que é a destruição do seu caráter afetivo. Na verdade, a perda de sua humanidade pode ser entendida como fruto do meio em que vivia. Massacrado por seu mundo, acaba tornando-se um herói problemático, defeituoso (parece haver aqui um certo determinismo, na medida em que o homem seria apresentado como fruto e prisioneiro das condições mesológicas).
  • Há um aspecto que atenta contra a sua verossimilhança, que é um célebre problema de incoerência: como um romance tão bem escrito como pôde ter sido produzido por um semi-analfabeto como Paulo Honório. É uma narrativa muito sofisticada para um narrador de caráter tão tosco.
  • Quando se menciona que a narrativa é sofisticada, não se quer dizer que haja rebuscamento. A linguagem do romance, seguindo o estilo de Graciliano Ramos, é extremamente econômica, enxuta, mas densa de beleza.
  • Outra beleza pode ser percebida pela maneira como o tempo é trabalhado. Há o tempo do enunciado (a história em si, os fatos narrados) e o tempo da enunciação (o ato de narrar, de contar a história). O primeiro é pretérito. O segundo é presente. Mas há momentos magistrais, como os capítulos 19 e 36, em que, em meio à perturbação psicológica em que se encontra o narrador, os dois acabam-se misturando.
  • Todos esses elementos, portanto, fazem de São Bernardo uma obra do mais alto quilate, facilmente colocada entre os cinco melhores romances de nossa literatura.
  • São Bernardo é um romance de confissão, aparentado com Dom Casmurro. Narrado em primeira pessoa, é curto, direto e bruto. Poucos, como ele, serão tão honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e esta força parece provir da sólida unidade que o autor lhe imprimiu. As personagens e as coisas surgem como meras modalidades do narrador, Paulo Honório. ante cuja personalidade dominadora se amesquinham, frágeis e distantes. Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é, mais que um estudo analítico, verdadeira patogênese desse sentimento.
  • De guia de cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, ignorando escrúpulos e visando atingir o seu alvo por todos os meios.
  • O teu fito na vida foi apossar-me das terras de São Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular.
  • É um homem que supervaloriza a propriedade, tipo de gente para quem o mundo se divide em dois grupos: os eleitos que têm e respeitam os bens materiais, e os réprobos, que não os têm ou não os respeitam.
  • Daí resultam uma ética, uma estética e até uma metafísica, De fato, não é à toa que um homem transforma o ganho em verdadeira ascese, em questão definitiva de vida ou morte.
  • “A princípio o capital se desviava de mim, e persegui-lo sem descanso, viajando pelo sertão, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operaçôes embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações de armas engatilhadas”.
  • O próximo lhe interessa na medida em que está ligado aos seus negócios, e na ética dos números não há lugar para o luxo do desinteresse.
  • “(...) esperneei nas unhas do Pereira, que me levou músculo e nervo, aquele malvado. Depois, vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga”.
  • “(...) levei Padilha para a cidade, vigiei-o durante a noite. No outro dia cedo, ele meteu o rabo na ratoeira e assinou a escritura. Deduzi a dívida, os juros, o preço da casa, e entreguei-lhe sete contos quinhentos e cinqüenta mil-réis. Não tive remorsos”.
  • Uma só vez age em obediência ao sentimento de gratidão, recolhendo a negra que o alimentou na infância e que ama com uma espécie de ternura de que é capaz. Ainda assim, porém, as relações afetivas só se concretizam numericamente:
  • “A velha Margarida mora aqui em São Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu”
  • Com o mesmo utilitarismo estreito analisa a sua conduta: “A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que me deram lucro”.
  • Até quando escreve, a sua estética é a da poupança: “É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço”.
  • A aquisição e a transformação da Fazenda São Bernardo levam, todavia, o instinto de posse de Paulo Honório a arraigar-se num sentimento patriarcal, naturalmente desenvolvido - tanto é verdade que o seu modo de agir depende em boa parte das relações com as coisas.
  • “Amanheci um dia pensando em casar Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar (...) O que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de São Bernardo”.
  • A partir desse momento, instalam-se na sua vida os fermentos de negação do instinto de propriedade, cujo desenvolvimento constitui o drama do livro.
  • Com efeito, o patriarca à busca de herdeiro termina apaixonado, casando-se por amor; e o amor em vez de dar a demão final na luta pelos bens, revela-se, de início, incompatível com eles. Para adaptar-se, teria sido necessária a Paulo Honório uma reeducação afetiva impossível à sua mentalidade, formada e deformada. O sentimento de propriedade, acarretando o de segregação dos homens, o distancia das pessoas, porque origina o medo de perder o que já conquistou, e o seu convívio com outros resume-se em relações de mera concorrência. O amor, pelo contrário, unifica e totaliza. Madalena, a mulher - humanitária, mão-aberta -, não concebe a vida como uma relação de possuidor e coisa possuída. Daí o horror com que Paulo Honório vai percebendo a sua fraternidade, o sentimento, para ele incompreensível, de participar na vida dos desvalidos.
  • Nessa luta, porém, não há vencedores. Acuada, vencida, Madalena suicida-se. Paulo Honório, vitorioso, de uma maneira que não esperava e não queria, sente, no admirável capítulo XXXVI, a inutilidade do violento esforço da sua vida:
  • “Sou um homem arrasado (...) Nada disso me traria satisfação (...) Quanto às vantagens restantes — casas, terras, móveis, semoventes, consideração de políticos, etc. - é preciso convir em que tudo está fora de mim. Julgo que me desnorteei numa errada (...) Estraguei minha vida estupidamente (...) Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo”.
  • Vencendo a vida, porém, foi de certo modo vencido por ela; imprimindo-lhe a sua marca, ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer. Nesse estudo patológico de um sentimento, Graciliano Ramos - juntando mais um dado à psicologia materialista esposada em Caetés - parte do pressuposto de que a maneira de viver condiciona o modo de ter e de pensar:
  • “Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também uma conseqüência da profissão”.
  • “Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes”.
  • O seu caso é dramático, porque há fissuras de sensibilidade que a vida não conseguiu tapar, e por elas penetra uma ternura engasgada e insuficiente, incompatível com a dureza em que se encouraçou. Daí a angústia desse homem, cujos sentimentos eram relativamente bons, quando escapavam à sua tirania, ao descobrir em si mesmo estranhas sementes de moleza e lirismo, que é preciso abafar a todo custo.
  • “Emoções indefiníveis me agitam — inquietação terrível, desejo de tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é antes desespero, raiva, um peso enorme no coração”.