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Nas montanhas da loucura (H.P. Lovecraft)


Nas montanhas da loucura (H.P. Lovecraft) Um grupo de exploradores científicos parte do continente americano e vão para as geleiras antárticas para tentarem descobrir fatos sobre a vida naquele gelado território e outras coisas mais. Porém, a exploração debanda para um lado nunca antes explorado pelo ser humano e dão de cara com uma cadeia de montanhas enormes. E, praticamente aos pés desta aterrorizadora barreira, é descoberta uma caverna que esconde seres nunca antes vistos pela humanidade. 

O protagonista é chamado para estar naquele local para se utilizarem de seus conhecimentos geológicos, e ele corre para o local com sua equipe, mas chega tarde demais. O local está devastado e a curiosidade e o senso investigativo os instigam a tentar passar pelas montanhas enormes e tentar desvendar este mistério de uma vez por todas. Entretanto, pior do que isso, será tentar manter a sanidade em meio a este suspense. 

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Nas primeiras páginas do livro, a missão da Universidade Miskatonic à Antártida é descrita pelo narrador, o pesquisador William Dyer, com detalhes. Ainda na primeira parte, um grupo de exploradores de vanguarda, liderados por Professor Lake, relata a descoberta de uma cadeia montanhosa mais alta que o Himalaia, cheia de cavernas, onde eles encontram uma espécie desconhecida, com asas, tentáculos e vários olhos. 

Os diferentes grupos de pesquisadores, que se separam pelo continente gelado, se locomovem por aviões e se comunicam através de mensagens telegráficas por rádio. Quando o professor Dyer, deixa de receber mensagens do grupo de Lake, ele resolve se deslocar até o acampamento do colega para ver o que aconteceu. 

A segunda e terceira partes mostram a exploração de Dyer à cadeia de montanhas descritas por Lake. E essa parte considerável da história é utilizada para explicar como os Anciões (Old Ones) colonizaram a Terra, com a ajuda de seres que eles escravizaram os Shoggoths. E depois, com a chegada da prole de Cthulhu e os MiGo, e como os Anciões foram pouco a pouco sendo exterminados e encurralados no sul do planeta. 


Sobre o livro: 

O livro é escrito de maneira autobiográfica, relatando as experiências do explorador nesta confusão misteriosa. Entretanto, como o personagem é um homem da ciência, ele é bem descritivo sobre as coisas que encontra e fica prometendo e prometendo sobre descobertas aterrorizantes, e isso vai elevando a sua expectativa tremendamente até o seu chocante final. E para homens que, de repente, se deparam com o até então inimaginável, é uma experiência totalmente fora da curva. 

E vemos aqui o começo de influências em questão de roteiros e design que seriam trazidos a vida em outras obras da cultura pop, como explorações que dão errado como a franquia Alien, com King Kong, e monstros com desenhos parecidos como as máquinas de Matrix e os alienígenas de A Chegada. Com certeza, vale a sua leitura, para conhecer mais do universo inominável de Howard Philips Lovecraft.

No ar rarefeito (Jon Krakauer)


Contratado pela revista “Outside” para fazer uma reportagem a respeito da crescente comercialização da montanha, Krakauer, um alpinista experiente, foi ao Himalaia como cliente de Rob Hall, o guia de alta montanha mais respeitado do mundo. Nascido na Nova Zelândia, 35 anos, Rob Hall escalou o Everest quatro vezes entre 1990 e 1995, e nesse período levou 39 pessoas até o topo. Em 1996, subindo a montanha ao lado do grupo de Hall havia uma outra expedição, guiada por Scott Fischer, um americano de força e determinação lendárias que em 1994 alcançou o pico sem oxigênio suplementar. 

Nos anos 70, o famoso alpinista tirolês Reinhold Messner surgiu como o principal proponente da escalada sem oxigênio suplementar, declarando que ou escalava o Everest "da forma correta" ou não escalava, e pronto. Pouco depois disso, ele e seu velho parceiro, o austríaco Peter Habeler, surpreenderam a comunidade internacional de alpinistas cumprindo a promessa: às 13h 00 do dia 8 de maio de 1978 eles chegaram ao cume pela trilha do colo sul e da crista sudeste sem usar oxigênio suplementar. O feito foi saudado em alguns círculos de alpinistas como a primeira verdadeira escalada do Everest.

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O Jornalista Krakauer relata a tragédia que abalou a história do alpinismo no Himalaia quando quase uma dezena de pessoas morreram ao tentar atingir o cume do Everest, graças a decisões equivocadas tomadas exclusivamente por razões financeiras, sem levar em conta o rigor do clima a mais de 8 mil metros de altitude. 

O objetivo era a maior montanha de todas, o Everest. Os escaladores não eram experientes; eram pessoas que queriam apenas atingir o topo do mundo. Mas o clima não foi favorável. 

No começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, a 8.848 metros de altitude. Ele não dormia há mais de 56 horas e estava zonzo pela falta de oxigênio. 

No caminho da volta para começar a longa e perigosa descida, outras 20 pessoas ainda se arrastavam em direção ao topo. Ninguém percebera que o tempo ameaçava piorar. Seis horas depois, à mil metros abaixo e exposto a um vento terrível, Krakauer finalmente chegou a sua barraca e ali se estatelou, congelando, sofrendo alucinações advindas da exaustão e da hipoxia. Mas estava vivo e salvo! 

Na manhã seguinte Krakauer ficou sabendo que 6 de seus companheiros de escalada não tinham conseguido voltar ao acampamento e que tentaram desesperadamente sobreviver debaixo da tempestade. Mas quando o tempo por fim melhorou, ficara sabendo que 5 desses companheiros estavam mortos e o sexto tinha as mãos e o rosto quase completamente comprometidos pelo congelamento. 

Enfim, depois dessa grande tragédia Krakauer conta toda a história, inclusive relatando vários casos de outros alpinistas que tentaram escalar a montanha. Krakauer faz uma reflexão sobre o encanto avassalador que o Everest exerce sobre as pessoas - inclusive ele mesmo -, levando-as a arriscar a vida, a ignorar os temores dos entes queridos e se aventurar numa tarefa duríssima e caríssima. 

A história é contada com emoção, e por alguns momentos até nos sentimos envolvidos como se ali estivéssemos próximos dos acontecimentos. Um exemplo é o caso do sherpa Ngawang que em alta altitude teve um edema pulmonar com sangramentos e que uma luta muito grande pela equipe médica se travara para tentar salvá-lo. Mas o sherpa acabara morrendo mais para frente pelas sequelas ocorridas. 

Outros casos também foram relatados por Krakauer como o da socialite Sandy Hill Pittman a qual chamava muita atenção por suas extravagâncias em levar tudo que tinha direito para a montanha: Iguarias finíssimas, televisão portátil, vídeo cassete, ou seja, cheia de estilo.

“Nas seis semanas anteriores antes das mortes já tinha havido uma série de acidentes sérios: a queda de Tenzing numa greta antes mesmo de ter chegado ao acampamento-base; o edema pulmonar de Ngawang Topche e a subsequente deterioração de seu estado; um alpinista inglês jovem e aparentemente em forma, chamado Ginge Fullen tivera um sério ataque cardíaco perto do topo da cascata de gelo; um dinamarquês chamado Kim Sejberg fora atingido por um serac na cascata de gelo  e quebrara várias costelas. Só que até aquele momento ninguém tinha morrido, ainda”. “

"O alpinismo costuma atrair homens e mulheres que não abandonam seu objetivo com facilidade. Para chegar tão longe, é preciso obstinação. Infelizmente, o tipo de pessoa que é programada para ignorar desconfortos físicos e para continuar avançando rumo ao topo também é, com frequência, programada para ignorar os sinais de perigo iminente e grave. Aí está o nó do dilema que todo alpinista no Everest acaba tendo que enfrentar: para ter sucesso, você precisa estar bastante motivado, mas, se a motivação for excessiva, é provável que você morra”. 

“Tinha que me lembrar, a todo momento, que havia 2133 metros de céu de ambos os lados, que ali era tudo ou nada, que eu pagaria com a própria vida por um único passo mal dado”. 

“E aí me vi no topo de uma cunha delgada de gelo, adornada com um cilindro usado de oxigênio e uma surrada vara de medição de alumínio, sem ter mais o que subir. Uma fileira de bandeirinhas budistas agitavam-se ao vento com fúria. Chegar ao topo do Everest supostamente desencadeia uma onda de intensa alegria; apesar de todos os pesares, eu atingira uma meta cobiçada desde a infância. Porém o topo era, na verdade, apenas a metade do caminho. Qualquer impulso que eu pudesse ter sentido de autocongratulação foi eliminado de imediato pela apreensão horrenda que eu sentia diante da longa e perigosa descida que tinha pela frente”.

O piloto Adams, mais tarde explicara para Krakauer: “Quando você vê um cúmulo-nimbo do avião", explicou ele, "sua primeira reação é dar o fora dali o mais rápido possível”! Porém Krakauer quando ainda estava descendo a montanha, como não estava acostumado a olhar por cima os cúmulos-nimbos começou a descer a montanha ignorando a tempestade que naquela altura estava se formando. 

“A luz do dia estava sumindo, o tempo piorando, minhas reservas de força estavam quase no fim. Ainda assim não tive nenhum pressentimento de que havia uma catástrofe se aproximando”. 

Krakauer estava acabando de voltar às barracas do acampamento 4 quando “naquele brevíssimo período de tempo a tempestade se convertera repentinamente em um furacão de extrema violência”. Grãos de neve e gelo, açulados pelo vento, batiam no rosto dos alpinistas com força violentíssima, machucando-lhes os olhos e tornando impossível enxergar por onde estavam indo. "Estava tão difícil e penoso"! 

Com a tempestade, Krakauer muito esgotado já estava a salvo na barraca, porém um grupo de alpinistas ainda estava preso na montanha. 

"O vento estava tremendo, com força balística", ele conta. "A neve levantada pelo vento parecia um jato de areia ou algo assim”.

“A essa altura ninguém conseguia sair para ir resgatar os alpinistas, uns doentes, outros muito debilitados, outros com medo de ajudar. Foi então que Boukreev, um guia Russo resolveu sair sozinho bravamente na tempestade em busca de todo o grupo. Não encontrara ninguém. Voltou ao acampamento para obter mais indicações de outros e saiu novamente à procura. Foi então que encontrou os alpinistas deitados no gelo sem movimentos”. 

“O vento continuava feroz — forte o bastante para me derrubar várias vezes”. Assim Jon Kraukeur saíra no outro dia a procura de seu amigo Andy Harris (Guia da Nova Zelândia), o qual não voltara pois havia morrido. Outros como Beck Wheathers (Cliente dos EUA), Doug Hansen (Cliente dos EUA) e Rob Hall (Nova Zelândia) também morreram. A esposa de Rob estava grávida de uma menina e antes de morrer Rob pediu à ela que colocasse o nome dela de Sara. Yasuko Namba (Cliente do Japão) de 47 anos, a mais velha do mundo a escalar o Everest e Beck Wheathers (Cliente dos EUA) foram deixados pela equipe de resgate sob a neve mas ainda estavam respirando. A tentativa de resgate colocaria em vida os outros alpinistas. 

Scott Fischer (EUA, líder da expedição da Mountain Madness, um americano de força e determinação lendárias que em 1994 alcançou o pico sem oxigênio suplementar) atingira o cume mas estava muito debilitado. Ao lado de seu fiel e sidar sherpa Lopsang Jangbu, Scott Fischer tentava descer a montanha debaixo da tempestade com raios mas não conseguia mais andar. Lopsang, muito cansado, não tendo forças para carregar Scott Fischer teve que deixar o amigo há 365 metros acima do colo sul e descer para pedir ajuda. Porém quando alguns sherpas foram auxiliá-lo Scotty já estava morto. Os que tinham sobrevivido estavam em estado de choque, cegos, fracos, sem falas, congelados, com hipotermia, com delírios, etc.. Mais adiante Lopsang que voltara ao Everest novamente acabara morrendo também engolido por uma avalanche. Especula-se que Fischer tenha sofrido de uma forma avançada do mal de altitude, desencadeando um edema cerebral ou pulmonar. Foi construído um memorial para Scott Fischer, que pode ser encontrada no topo de uma colina chamada Dugla Pass, perto da aldeia de Dugla, na trilha para o acampamento base do Everest.

Yasuko Namba, a mulher japonesa de 47 anos acabara também morrendo. E Beck Wheathers (Aquele que estava quase morto debaixo da neve) impressionantemente conseguiu se reerguer sozinho e conseguiu chegar nas barracas andando. Depois disso a equipe chamou o helicóptero para levar ele e Makalu Gau Ming-Ho (Líder Tawan) ao hospital, pois ambos não conseguiam nem andar. Beck teve o braço direito amputado por causa da necrose por congelamento e todos os dedos da sua mão esquerda foram removidos, além do nariz amputado. 

Neal Beidleman (Guia dos EUA) voltou a escalar o pico do everest em abril de 2011. Em 1997, Anatoli Boukreev (Guia da Rússia) morreu em uma avalanche enquanto escalava o Himalaia. 

Heróis sonhadores que deliram com o Everest precisam ter em mente que, quando as coisas dão errado acima da zona da morte - e mais cedo ou mais tarde elas sempre dão -, nem o melhor guia do mundo consegue salvar a vida de um cliente; na realidade, como ficou provado com os acontecimentos de 1996, os melhores guias do mundo às vezes são impotentes para salvar até sua própria vida. Falhar, no Everest, faz parte da natureza dos sistemas, e de forma violenta.. 


Mensagem de um sherpa colocada na internet em 1996 

Sou um órfão sherpa. Meu pai morreu na cascata de gelo do Khumbu enquanto transportava carga para uma expedição, no final dos anos 60. Minha mãe morreu logo abaixo de Pheriche, quando seu coração acabou cedendo sob o peso da carga que levava para uma outra expedição, em 1970. Três de meus irmãos morreram de causas variadas, minha irmã e eu fomos mandados para casas de adoção, na Europa e nos Estados Unidos. Nunca mais voltei à minha terra natal porque acho que está amaldiçoada. Meus ancestrais chegaram à região do Khumbu fugindo de perseguições nas terras baixas. Ali encontraram um santuário, à sombra do "Sagarmathaji", "deusa mãe da terra". Em troca, meu povo deveria proteger o santuário dos estranhos. 

Porém, eles foram pelo caminho oposto. Ajudaram os estranhos a encontrarem um caminho até o santuário e violar cada membro de seu corpo, ao se postarem em cima da deusa, bradando vitória, sujando e poluindo seu seio. Alguns se sacrificaram, outros escaparam por um triz ou ofereceram outras vidas em seu lugar. [...] 

Portanto, acredito que até os sherpas são responsáveis pela tragédia de 1996 em "Sagarmatha". Não lamento nunca mais ter voltado, porque sei que o povo da região está condenado, assim como estão aqueles ricos e arrogantes forasteiros que acham que podem conquistar o mundo. Lembrem-se do Titanic. Até mesmo o que não poderia ser afundado afundou, e o que são tolos mortais como Weathers, Pittman, Fischer, Lopsang, Tenzing, Messner, Bonington perante a "Deusa Mãe"? Como tal, jurei nunca mais regressar e participar desse sacrilégio.

Negrinha (Monteiro Lobato)


Negrinha é narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional muito forte. Sem dúvida alguma é conto invejável: "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças." 

D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava choro de crianças. Se Negrinha, bebezinho, chorava nos braços da mãe, a mulher gritava: "Quem é a peste que está chorando aí?" A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e afastando-se com ela para os fundos da casa, torcia-lhe beliscões desesperados. O choro não era sem razão: era fome, era frio: “Assim cresceu “Negrinha”, magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a ideia dos grandes. 

Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra, provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretexto de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. - Sentadinha aí e bico, hein?" Ela ficava imóvel, a coitadinha. Seu único divertimento era ver o cuco sair do relógio, de hora em hora. 

Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela espichando trancinhas sem fim... Nunca tivera uma palavra sequer de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi chamada bubônica, por causa da peste que grassava... "O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta..."

D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter sido proclamada, conservava em casa Negrinha para aliviar-se com "uma boa roda de cocres bem fincados!..." Uma criada furtou um pedaço de carne ao prato de Negrinha e a menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D. Inácia tomou providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo nariz... O padre chegava naquele instante e D. Inácia fala com ele sobre o quanto cansa ser caridosa... 

Em um certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, rechonchudas, louras, "criadas em ninho de plumas." E negrinha viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir quando as via brincar. Negrinha arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau, uma boneca loura, de louça. Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não... e pôde, então, pegar aquele serzinho angelical : "E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços d'olhos para a porta. Fora de si, literalmente..." Teve medo quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da surpresa das meninas que mal acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto uma boneca, deixou-a em paz, permitiu que ela brincasse também no jardim. 

Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia. Mas se foram as meninas, a boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre. Sabedora do que tinha sido a vida, a alma desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: "Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos..." 

No final da narrativa, o narrador nos alerta: "E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas. - "Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?" Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia: - "Como era boa para um cocre!..." 

É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez. Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a graça da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram a Negrinha a condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca aparece, sua vida muda. É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem esperança.

No Moinho (Eça de Queirós)


O conto “No Moinho” de Eça de Queirós traz como personagem principal, Maria da Piedade que “era considerada em toda a vila como uma senhora modelo” que dava orgulho à vila por “sua beleza delicada e tocante; era loura, de perfil fino, a pele ebúrnea, e os olhos escuros”, enfim, era considerada “uma fada”. Essa descrição denota a opinião da sociedade sobre a personagem e todas as características reforçam o ideal romântico de mulher apresentado logo no início da narrativa. 

De família modesta, mãe “desagradável” e pai bêbado, Maria da Piedade vê como única saída casar-se com João Coutinho, um homem doente, mas rico, com quem teve três filhos, duas meninas e um menino que por herança genética todos nasceram doentes. Assim, restava-lhe viver como enfermeira, cuidando das doenças do marido e dos filhos. Como consequência sua vida é sombria, pois está sempre “vestida de preto” e sua casa parece “lúgubre”. 

Então, João Coutinho recebe uma carta de quem tinha orgulho, seu primo Adrião, romancista de Lisboa, anunciando sua chegada para a venda de uma propriedade rural. Imediatamente João manda providenciar estadia para o primo e isso deixa Maria da Piedade apavorada por ter em casa um estranho que quebraria a rotina da residência, porém o primo chega e deseja ficar na estalagem de Tio André para não perturbar a ordem da casa de Coutinho. 

Adrião desejava vendar uma fazenda, mas não encontrava comprador, então, João Coutinho ofereceu Maria Piedade para ir com ele à fazenda, pois era boa conselheira e entendia dessas coisas. O primo, então, comentou: um anjo que entende de cifras. E, pela primeira vez, Maria Piedade se sentiu valorizada com o dizer de um homem, pois “corou” com as palavras de Adrião. É nesse momento que ela começa a enxergar o primo com os olhos da alma. 

No dia seguinte, encaminharam-se à fazenda e o narrador descreve o dia como “fresco e claro”, características que traduzem tranquilidade e metaforiza o paraíso que antes era inexistente, por ser lúgubre e cheio de trevas. 

Decidiram, posteriormente, ir ao moinho para que Adrião conhecesse. “Já viu o moinho? – perguntou-lhe ela. Tenho vontade de o ver, se mo quiser mostrar, prima.” Essa parte do diálogo mostra que os dois já se sentiam atraídos e pouco faltava para que essa atração os unisse. Nesse dia, Adrião vai para a estalagem e percebe que está “interessado por aquela criatura tão triste e doce”, diferente das demais mulheres que ele conhecera, já que era um homem desejado por todas. 

Ao descrever a mulher desejada, Adrião demonstra o conhecimento que tem da alma feminina, adquirido com seu último livro, Madalena, pois a obra exigiu “um estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma análise delicada e sutil” que o consagrou como mestre na análise da mulher. Após observar aquela que ele chamava de anjo, pôde concluir que ela era presa àquele lugar, à tradição e “bastaria um sopro para o fazer remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade”. Nesse trecho é possível perceber o que Adrião já planejava acontecer nos próximos dias. 

Como combinado, foram ao moinho e cansada da caminhada, Maria da Piedade senta-se numa pedra e Adrião começa a comparar o moinho com o paraíso e a imaginar como seria se eles para sempre ficassem ali. Então, ela fica corada e ri. Mas, de repente, ele a abraça e a beija profundo e interminavelmente, colocando-a contra seu peito, “branca, como morta”. A palavra morta nesse trecho é usada de maneira dicotômica, representando a morte e a vida, pois até esse momento Maria da Piedade não vive para si e não é feliz, pois vive apenas para o marido e os filhos. Assim, Adrião com um beijo a desperta, como se fosse a Bela Adormecida, para a vida. Após beijá-la, ele fica contente com sua “generosidade” como se ele soubesse as possíveis consequências do beijo na prima, que se evidenciam no trecho onde ele afirma que “de resto um momento como aquele no moinho não voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da província, desmoralizando, a frio, uma boa mãe...”. 

Maria da Piedade ao sentir e visualizar outras possibilidades para sua existência, além de ser enfermeira do marido e dos filhos, reflete sobre a vida que tem e começa a achar os seus “fardos injustos”, então, compreendemos que quando não se conhece outros “sabores”, resta o contentamento com o que se tem. A partir dessa conclusão a personagem começa a pensar em apressar a morte do marido e a deixar os filhos sujos e sem comida.

Injustiçada, restava-lhe o amor que sentia por Adrião e “refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa”, portanto, ela passara a sonhar, a imaginar aquele homem forte, extraordinário, belo como sendo a razão de sua vida, pois antes de conhecê-lo estava morta ao lado de um homem fraco e doente que era João Coutinho. Inclusive, é possível fazer uma comparação semântica entre o nome de Adrião que reflete expansividade, força, enquanto o de João Coutinho com o diminutivo o faz pequeno e fraco. 

Amando Adrião, Maria da Piedade queria tudo “que era ou vinha dele”, por isso “leu todos os seus livros, sobretudo aquela Madalena que também amara e morrera dum abandono”, nesse momento ela se identifica com Madalena, pois amara e também fora abandonada por Adrião. E lendo, se acalmava e revidava a vida que vivia, pois pegava emprestado essa vivência quando chorava “as dores das heroínas de romance”, logo, “parecia sentir alívio às suas”.

Ela passou a sentir necessidade de ler romances constantemente, assim “criando no seu espírito um mundo artificial e idealizado”. É nesse momento que a personagem começa a idealizar, coisa que não fazia antes, também começam aparecer revoltas, ocasionadas pelas interrupções à suas leituras românticas. 

“O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se a um ser vago que era feito de tudo que a encantara nos heróis de novela”, Maria da Piedade queria ser amada, importante como mulher e possuída pelos homens aos moldes dos romances que lia, pois assim ela preencheria seu vazio com seus amantes que, em geral, eram fortes, o oposto da figura raquítica de seu marido. 

“À noite abafava; abria a janela; mas o cálido ar, o bafo morno da terra aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, cortada de crises de choro.” O momento noturno propiciava reflexão e solidão à Maria da Piedade que mesmo rodeada de amantes, terminava solitária e chorosa à noite. Então, no moinho, a figura de Santa se transforma em Vênus, deusa do amor responsável pelo prazer, pelo sexo e pela satisfação de maneira inconsequente, sendo na Odisseia aquela que também trai. 

É preciso reconhecer que Maria da Piedade desejou ser outra antes da sua transformação em Vênus, pois tinha “momentos em que desejasse alguma outra coisa além daquelas quatro paredes, impregnadas do bafo de doença...”, portanto, não se muda uma pessoa, apenas lhe mostra o caminho, as escolhas e Adrião lhe mostrou um mundo novo, cheio de opções além das enfermidades, a fez livre e por se tornar livre, acabou escandalizando “toda a vila” que tinha princípios morais opostos aos adotados por Vênus. 

A traição ocorrida em “No moinho” tem uma mera semelhança com o romance, do mesmo autor, “O Primo Basílio”. No conto, Maria da Piedade mesmo tendo um marido, não tem um companheiro, pois este vive enfermo, assim como Luísa no romance, que tem um marido ausente. Ambas sofrem por essa condição e com a chegada dos primos Adrião e Basílio, respectivamente, a situação é intensificada, culminando no adultério. As duas mulheres, antes vistas como anjos, caem em traição e viram “Vênus”, sendo malvistas pela sociedade a que pertencem. 

Ao abordar esse tema (adultério), Eça de Queirós pretende criticar a influência dos romances nas traições matrimoniais, fato bastante evidenciado no conto, onde o narrador afirma que “o romantismo mórbido tinha penetrado naquele ser, e desmoralizara-o tão profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços”. Devido a essa crítica ao idealismo romântico o conto se encaixa na perspectiva naturalista, pois o instinto prevalece à razão, por meio do espaço corrompido moralmente pela traição, assim, provando que o meio é capaz de influenciar o homem.

Noites Brancas (Fiódor Dostoiévsky)


Primeiramente, em termos de curiosidade, a expressão “Noite Branca” refere-se ao fenômeno climático comum na Rússia e no Leste Europeu, onde o sol não se põe em nenhuma hora do dia fazendo com que as noites fiquem brancas, e realmente, para quem lê o livro, o ambiente em que essa história se passa parece esbranquiçado, claro, um pouco vazio e solitário. Outra observação é de que “O Sonhador” se refere ao narrador que é também o personagem central dessa história. E por último esclarecer que essa obra é do romantismo, e sendo assim não se assustem com o final nada atípico, já que o amor impossível é uma característica desse fenômeno literário. 

Noites Brancas é um livro escrito pelo russo Fiódor Dostoiévsky em 1848, escrito antes de sua prisão. Talvez por isso é uma obra que traz mais sensibilidade. 

Para que possamos entender essa obra de Dostoievsky precisamos saber que esse escritor não foi um romancista do nada, a vida fez com que ele se identificasse com esse tipo de trabalho, que ele sempre teve uma vida sofrida: perdeu a mãe ainda pequeno, sua esposa e seu irmão morreram no mesmo ano e depois de sair da prisão sofreu de paranóia, do vício do jogo, do alcoolismo e da pobreza. Pelo que parece a melancolia presente, nessa e em outras obras, é por causa de sua vida, que não foi uma das melhores.

Nessa história, que é dividida em cinco capítulos: Primeira Noite, Segunda Noite, Terceira Noite, Quarta Noite, Manhã, o nosso personagem principal é o Sonhador, como ele mesmo se denomina. Ele narra à história fazendo parecer tudo muito real, os sentimentos são evidenciados de maneira plausível. Ainda como personagem temos a cidade de São Petersburgo; parece um pouco estranho ter a cidade como personagem, porém isso evidencia mais uma vez a solitude melancólica em que nosso Sonhador vive, até porque ele demonstra ser um grande conhecedor da cidade. 

O livro narra as longas caminhadas do Sonhador pelas ruas de Petersburgo, momentos em que observa as pessoas, suas vidas e tenta afastar a solidão de sua existência. O Sonhador sente um vazio tão profundo que chega a ser divertida a forma como se relaciona com "as coisas" que encontra pelo caminho. É sério... observando casas, rios, transeuntes ele faz deles seus "amigos".

Foi numa dessas caminhadas que o Sonhador encontrou a desiludida Nastássia. Seu choro chamou-lhe à atenção. Aproximaram-se. Durante as quatro noites seguintes eles se encontraram neste mesmo lugar e trocaram confidências, suas vidas, seus amores, seus anseios... São um encontro de almas. A cumplicidade entre os dois cresce gradativamente. 

Nesse período o Sonhador começa a contar a sua história, expondo apenas seus devaneios, pois considera que não tem história, sempre se ridiculariza. 

Nastássia se impressiona com sua solitude e, por pena, dá seu voto de confiança a ele. E ela começa a contar sua história: ela também, como o Sonhador, demonstra ter muitos sonhos e ser uma pessoa sozinha. Sua avó a prendera junto da sua saia com alfinetes. Ela vivia junta ao mesmo vestido da avó, que por ser cega queria ter mais controle sobre a neta. Porém Nastássia havia se relacionado com um “homem” que fora inquilino de sua avó e por questões trabalhistas ele se mudara de cidade prometendo voltar dali a um ano para aquela que havia roubado o seu coração. 

Nesse momento Nastássia se emociona alegando que aquele era o dia exato em que ele tinha partido a um ano atrás. Então o Sonhador consola-a e se compromete a mandar uma carta a esse homem pedindo satisfações, uma vez que era hábil com as palavras. Os dois se comprometem a se reencontrar na noite seguinte. 

Na terceira noite Nastássia chega muito alegre, agradecendo ao Sonhador por não ter se apaixonado por ela – o que não era verdade, o Sonhador já sofria de amores por ela -! 

Em certo momento Nastássia começa a chorar dizendo que o homem por quem se apaixonara não iria voltar, porém o Sonhador a consola e fala que ainda não dera tempo da carta chegar. Nastássia muito comovida agradece o Sonhador e diz : “Por que ele não é o senhor? Por que ele não é como o senhor? Ele é pior do que o senhor, embora eu o ame mais do que a si.” De novo os dois se comprometem em se encontrar novamente na noite seguinte. 

Na quarta e última noite o Sonhador decide se declarar a Nastássia. Ela, então, comovida e sem esperanças de que sua verdadeira paixão volte diz querer se entregar ao Sonhador. Em alguns momentos dessa noite os dois riram, choravam, andaram juntos com um tom de felicidade estampado no rosto, porém tudo isso é interrompido... por aquele homem que havia prometido voltar, e voltou!

Nastássia saiu em disparada aos braços desse homem. Mas, ela, um pouco ressentida vira-se ao Sonhador e em forma de agradecimento por tudo o envolve em seus braços e lhe aplica um beijo intenso e caloroso. Depois, sem dizer uma palavra ela volta aos braços do seu amor, que a leva consigo.

Pela manhã do dia seguinte, o Sonhador recebe uma carta de agradecimento e pedido de desculpas de Nastássia. 

Então o Sonhador volta a sua postura emblemática de melancolia e se vê em casa, na mesma casa, com a velha Matriôna quinze anos mais tarde. “Meu Deus! Um momento inteiro de júbilo! Não será isto o bastante para uma vida inteira?...”

Negrinha (Monteiro Lobato)

O conto Negrinha, escrito em 1920, durante a transição do Pré-Modernismo para o Modernismo, relata a história de uma pobre órfã negra, filha de escrava, que é criada por Dona Inácia, uma senhora da aristocrata, dona de uma fazenda, viúva e sem filhos.

Inconformada com a abolição da escravatura, Dona Inácia conservava a menina unicamente para extravasar à sua crueldade, aplicando na criança os mais severos maus tratos, tantos verbais (xingamentos, ordens duras e palavras rudes) como físicos (beliscões, tapas e “crocres”, etc), como se ela fosse seu “brinquedinho”. 

Dona Inácia descarregava sua amargura na menina, e deleitava-se com isso, a ponto de seu rosto ganhar um brilho especial só em imaginar a aplicação de um castigo na criança.

Quando Dona Inácia recebe em sua fazenda suas sobrinhas vindas da capital para uma temporada de férias, ocorre uma reviravolta no cotidiano de Negrinha.

As meninas, com suas vestes elegantes eram alegres e agitadas e Negrinha pensava que seriam castigadas pelas balbúrdias, assim como ela era castigada se fizesse barulho. Não houve castigo, pois ficara claro para Negrinha a diferença que existia entre ela e aquelas meninas.

Estas, ao perceberem que Negrinha poderia ser uma companhia de brincadeiras durante a temporada na fazenda oferecem-lhe uma boneca, e acham graça quando vêem que Negrinha nunca havia pegado em uma boneca.

Nesse período de estadia das meninas na fazenda Dona Inácia poupa Negrinha do rude tratamento habitual, pois estava vendo que suas sobrinhas tinham com quem brincar. 

Ao final das férias, Dona Inácia, mais serena, já não castigava a criança, mas algo se transformara para Negrinha pois uma vez que pôde vislumbrar um outro tipo de vida, ela teve a liberdade de exercer seu lado criança, brincando, sem medos dos castigos. 

Depois da partida das meninas Negrinha fôra tomada pela tristeza e pela melancolia, e em seu canto, ficara até morrer, esquecida por todos. 

Na cidade grande as meninas riam e lembravam de Negrinha como uma menina “bobinha” que não sabia nem o que era uma boneca. 

Dona Inácia fora tomada pela nostalgia, por ter perdido seu “brinquedinho” e por não ter mais em quem descarregar as suas maldades.

Noite na taverna (Álvares de Azevedo)


Noite na Taverna é uma narrativa (novela ou conto) construída em sete partes, contendo epígrafes e os nomes de cada personagem, como subtítulos, antecedendo as narrativas, contadas em uma taverna. Há, na última parte, o entrelaçamento da história de Johann e de alguns personagens.
Mais do que pelos elementos romanescos e satânicos que a condimentam (violentação, corrupção, incesto, adultério, necrofilia, traição, antropofagia, assassinatos por vingança ou amor), a obra impõe-se pela estrutura: um narrador em terceira pessoa introduz o cenário, as personagens, a situação, e praticamente desaparece, dando lugar a outros narradores - as próprias personagens, que em primeira pessoa contam, uma a uma, episódios de suas vidas aventureiras.
Na última narrativa, a presença física (na roda dos moços) de personagens mencionadas em uma narrativa anterior faz com que todo o ambiente fantástico e irreal dos contos se legitime como
verídico.
Noite na Taverna, obra escrita em tom bastante emotivo, antecipa em vários aspectos a narração da prosa moderna: a liberdade cênica, a dupla narração e suas confluências, a mistura do real ao fantástico confere atualidade à obra, apesar de toda a atmosfera byroniana.

Primeira parte
A primeira parte constitui uma espécie de apresentação do ambiente da taverna, da roda de bebedeira, de devassidão em que se encontram os personagens, do clima notívago e vampiresco. O tom declamatório anuncia a noitada e as histórias que estão por vir.
As primeiras páginas deixam antever o clima das gerações do mal do século, a irreverência incontida, a tendência a divagações literário-filosóficas, a vivência sôfrega e, principalmente, a morbidez e a lascívia.
Entre os "brados" e as taças que circulavam, são apresentados os personagens, e alguns deles tomas a palavra. Em primeira pessoa, relatam histórias pessoais. O primeiro a tomar a palavra é Solfieri que faz suas evocações, remontando-as a Roma, a "cidade do fanatismo e da perdição", onde "na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido". Certa noite, Solfieri vê um vulto de mulher. Segue-a até um cemitério; o vulto desaparece e o personagem adormece sob o frio da noite e a umidade da chuva. A visão deste vulto de uma mulher atordoou o personagem durante um ano, nada o satisfazia na troca de amores com mundanas. Uma noite, após prolongada orgia, sai vagando pelas ruas e acaba entre "as luzes de quatro círios" que iluminavam um caixão entreaberto. Lá estava a mulher que lhe provocara tantas alucinações e insônias. Era agora uma defunta. O homem tomou o cadáver em seus braços, despiu-lhe o véu e...
Mas, para disfarçar o caso de necrofilia, a mulher não estava morta, apenas sofrera um ataque e catalepsia. Ao perceber que a mulher não havia morrido, Solfieri levou-a para seu leito, contemplou-a e ela, depois de breve delírio, veio a falecer. Solfieri mandou fazer uma estátua de cera da virgem, guardou-a em seu quarto, conservou com uma grinalda de flores.
Johann, Bertram, Archibald, Solfieri, o adormecido, Arnold e outros companheiros estão na taverna, dialogando sobre loucuras noturnas, enquanto as mulheres dormem ébrias sobre as mesas. Falam das noites passadas em embriaguez e pura orgia. Solfieri os questiona a respeito da imortalidade da alma, sendo mais velho, parece não crer nela, por isso, Archibald o censura pelo materialismo. Solfieri acredita na libertinagem, na bebida e na mulher sobre o colo do amado. Os homens só se voltam para Deus quando estão próximos da morte, Deus é, pois, a "utopia do bem absoluto".

Segunda parte - Solfieri e a Necrofilia
Solfieri decide contar sua história, conforme sugere Archibald, desejoso de histórias fantásticas, cheias de sangue e paixão. Conta, então, que uma noite, ao vagar por uma rua, em Roma, passa por uma ponte, quando as luzes dos palácios se apagam. Vê a sombra de uma mulher chorando, numa escura e solitária janela, parecendo uma estátua pálida à lua.
Ela canta mansamente, saindo para a rua, sempre seguida por Solfieri. Pela manhã, ele percebe que está em um cemitério, sem saber, ao certo, se adormeceu ou desmaiou. Sente muito frio, adoece, delira, tendo visões com a bela e pálida mulher. Retorna a Roma um ano depois, sem encontrar alento nos beijos das amantes, perseguido pela visão da mulher do cemitério. Certa noite, muito bêbado, após uma orgia, se encontra num templo muito escuro e, vendo um caixão semi-aberto, crê que a mulher está lá dentro. Arranca-lhe a mortalha, faz amor com ela, que, pela madrugada, dá sinais de vida, retornando da catalepsia para desmaiar em seguida.
Solfieri coloca sua capa sobre a moça e foge com ela. Encontra com o coveiro e depois com a patrulha, que o considera um ladrão de cadáveres. Justifica-se, apresentando a esposa desfalecida. Ao chegar em casa, a moça grita, ri e estremece, morrendo 2 dias depois. Solfieri levanta o piso do quarto para dar lugar ao túmulo, suborna, antes, um escultor que lhe faz em cera a estátua da virgem. Aguarda um ano para estátua definitiva ficar pronta.
Volta-se para Bertram, recordando-lhe a visita deste em sua casa e de a ter visto por entre véus, sendo a ela apresentado como "uma virgem que dormia". Os amigos surpresos com a história desejam saber se se trata de um conto, mas ele jura por todo mal existente que não. Como prova, mostra sob a camisa a grinalda de flores mirradas, pertencente à moça.

Terceira parte - Bertran e a Antropofagia
A seguir, Bertram, um dinamarquês ruivo, de olhos verdes, conta que, também, uma mulher, uma donzela de Cadiz, Angela, o levou à bebida e a duelar com seus três melhores amigos e a enterrá-los. Quando decide casar com ela e consegue lhe dar o primeiro beijo, recebe carta do pai, pedindo seu retorno à Dinamarca. Encontra o velho já moribundo, chora, mas por saudades de Angela. Dois anos depois, vende toda fortuna, coloca o dinheiro num banco de Hamburgo e volta para a Espanha. Encontra a moça casada e mãe de um filho. A paixão persiste e os amantes passam a se encontrar às escondidas, vivendo verdadeiras loucuras noturnas até que o marido, enciumado, descobre tudo.
Uma noite, Angela, com a mão ensangüentada, pede ao rapaz para subir até sua casa e por entre a penumbra, ele encontra o marido degolado e sobre seu peito, o filho de bruços, sangrando. Angela deseja fugir em sua companhia, saem pelo mundo, ela vestida de homem vive grandes orgias. Foge mais tarde, deixando o rapaz entregue às paixões e vícios.
Bertram bêbado e ferido é atropelado por uma carruagem, diante de um palácio, sendo socorrido por um velho fidalgo, pai de uma bela menina, que, mais tarde, foge para casar-se com Bertram. Vendida em uma mesa de jogo a Siegfried, um pirata, ela o mata e o envenena, afogando-se a seguir. De dissipação em dissipação, o rapaz resolve matar-se no mar na Itália, mas salvo por marinheiros, fica sabendo que a pessoa que o salvou acabou, acidentalmente, morta por ele. São socorridos por um navio e Bertram é aceito a bordo em troca de que combatesse se necessário.
Mas, apaixona-se pela pálida mulher do comandante e, durante uma batalha contra um navio pirata, ele o trai, fazendo amor com a mulher. O navio encalha em um banco de areia, despedaçando-se aos poucos - os náufragos agarram-se a uma jangada e, em meio à noite e à tempestade, o casal vive horas de amor. Vagam a ermo pelo mar as três figuras, sobrevivendo de bolachas e, mais tarde, tiram a sorte para ver quem morrerá. O comandante perde, clama por piedade, mas Bertram se nega ouvi-lo, prefere a luta. Mata o comandante, que serve, por dois dias, de alimento a Bertram e a mulher. Ela propõe morrerem juntos, ele aceita. O casal gasta as últimas energias se amando. A mulher, enlouquecida, começa a gargalhar, Bertram febril a sufoca. Ela é levada pelas águas, enquanto o rapaz é salvo pelo navio inglês, Swallow.

Quarta parte - Gennaro e a Traição das Traições
A próxima história é a de Gennaro. Sua narrativa é sobre um velho pintor, Godofredo Walsh, casado com uma jovem de 20 anos, Nauza, que lhe serve de modelo e é amada como a filha do primeiro casamento, Laura, garota de 15 anos. Gennaro, aos 18 anos, é aprendiz de pintor e aluno de Godofredo. Vive na casa do mestre como um filho, recebendo  no corredor antes de dormir, beijos de Laura. Um dia, desperta e a encontra em sua cama, perdendo a cabeça diante da estonteante beleza da virgem. A cena se repete ao longo de 3 meses, quando a menina lhe diz que deve pedi-la em casamento, porque espera um filho. O moço nada responde, ela desmaia e se afasta, tornando-se cada dia mais pálida.
O pintor definha com a tristeza da filha, passeia pelos corredores à noite e deixa de pintar. Uma noite, Gennaro é chamado, porque Laura está morrendo e murmura seu nome. O moço aproxima-se e ela, sussurrando-lhe ao ouvido o perdão, diz que matou o filho e dá o último suspiro. O velho passa o ano endoidecido, chora todas as noites no quarto da morta, arfando ou afogando-se em soluços.
Enquanto isso, o rapaz e Nauza amam-se em seu leito. Uma noite, o velho o arranca da cama e o leva até o dormitório de Laura. Levanta o lençol que cobre um painel, descortinando a imagem moribunda de Laura, que murmura algo no ouvido do cadavérico Gennaro. Atordoado, o aprendiz confessa tudo a Godofredo.
No dia seguinte, o velho se comporta naturalmente, sem mencionar o ocorrido, lamenta apenas a falta da moça. Sonâmbulo, repete a mesma cena ao longo de várias noites e, numa delas, Nauza é testemunha. Uma noite de outono, após a ceia, Walsh convida Gennaro para um passeio fora da cidade. Após contornar um despenhadeiro, pede ao rapaz para esperá-lo, dirigindo-se a uma cabana de onde sai uma mulher. Depois, junta-se a Gennaro e ao chegar à beira de um penhasco, descreve a traição, envolvendo a filha e a esposa.
Pede ao rapaz para jogar-se precipício abaixo. Gennaro assim o faz, mas, após uma noite de delírios, acorda salvo por camponeses, em uma cabana. Decide retornar à casa de Walsh e pedir-lhe perdão, entretanto encontra pelo caminho o punhal do pintor. Decide vingar-se, mas encontra Nauza e Godofredo envenenados e apodrecidos, talvez, com o veneno obtido com a mulher da cabana.

Quinta parte - Claudius Hermann e a Paixão de Morte
Claudius Hermann, após preâmbulos em que discursa com os amigos de orgia acerca de diversos temas, expõe sua história, onde narra suas loucuras e orgias e de como desperdiçou uma fortuna no turfe, em Londres, onde vê uma bela amazonas, a duquesa Eleonora, esposa do duque Maffio. Antes de prosseguir com a história, Bertram indaga sobre a poesia, descrita como um punhado de sons e palavras vãs, enquanto Claudius a considera um prazer extremado, o que há de belo na natureza. Os colegas os interrompem, pedindo ao narrador que retome a história.
No dia em que avista a bela duquesa, Hermann dobra sua fortuna e, à noite, no teatro, a vê, mais uma vez. Ao longo de 6 meses, encontra a senhora em bailes e teatros até que decide comprar de um criado a chave do castelo. Entra, sorrateiramente, quando ela já está adormecida e coloca-lhe nos lábios narcótico. Aguarda que durma profundamente e então a possui, repetindo o fato, noite após noite, durante um mês.
Certa vez, após um baile, entra no quarto de Eleonora e vendo um copo com água junto à sua cabeceira, derrama nele o narcótico. Entram a duquesa e o duque que, antes de sair do quarto, prometendo-lhe retornar, bebe um pouco do líquido, seguido por ela. Claudius sabe que Maffio não virá ao quarto e que Eleanora dormirá profundamente.
Ergue-a do leito e foge com ela numa carruagem, chegando, ao meio-dia, a uma estalagem. Mais tarde, a duquesa desperta e surpresa por não estar em seu palácio, grita por socorro, desespera-se, ameaçando jogar-se pela janela. O rapaz lhe declara profundo amor e lhe descreve o rapto, dando-lhe duas horas para pensar se fica ou não com ele. Inconformada a princípio, decide aceitar o amor oferecido, pois a família e amigos, certamente, não a aceitariam mais.
Ao retornar, Claudius a encontra debruçada sobre um de seus versos. Interrompe a narrativa, retira um papel do bolso, mostrando o verso aos colegas. Conta que Eleonora lhe respondeu que ficava, mas caiu desmaiada. Dito isso, o rapaz tomba por sobre a mesa, calando-se. Archibald o sacode, implora para que desperte. Solfieri e os companheiros desejam saber sobre a duquesa, mas o rapaz está confuso, não se recorda de mais nada. Ouvem a gargalhada do louro Arnold que despertando, dá continuidade ao relato, dizendo que um dia Claudius entrou em casa e encontrou sobre a cama ensopada de sangue dois cadáveres; o Duque de Maffio matou Eleonora e enlouquecido, suicidou-se em seguida. Arnold estende a capa no chão e volta a dormir.

Sexta parte - Johann e o Incesto
Johann decide contar sua história. Está em um bilhar em Paris, jogando com Artur que, numa jogada definitiva para Johann, se encosta à mesa, por descuido ou de propósito. A mesa estremece e Johann é levado à derrota. O perdedor, enlouquecido de raiva, desafia o parceiro para um duelo. Antes, porém, Artur pede ao adversário que, caso morra, entregue a carta, que está em seu bolso, e o anel no seu dedo, para uma mulher que dirá, mais tarde quem é.
Saem com duas pistolas, uma carregada, a outra não; Artur é alvejado e morre, apontando para o bolso. Johann tira-lhe o anel, colocando-o em seu dedo e, a seguir, encontra dois papéis no bolso do morto: uma carta para a mãe, e outra indicando o horário e endereço para um encontro. O rapaz decide tomar o lugar de Artur. Descobre que aí mora a virgem namorada do rival que acaba na cama com Johann, num quarto escuro.
De repente, interrompe a narrativa, enche o copo e o bebe com estremecimento. Prossegue, narrando que ao sair do quarto, encontra um vulto à porta, cuja voz lhe soa familiar. É atacado com uma faca, luta ferozmente com o vulto; um homem desconhecido, que deixa cair o punhal, morrendo sufocado pela mão de Johann. Ao se retirar, tropeça numa lanterna e decide ver o rosto do estranho, estremece, a luz da lanterna se apaga. Vai arrastando o corpo até um lampião e, para sua surpresa, descobre tratar-se de seu irmão. Louco de terror retorna ao quarto, mas, outra vez, interrompe a narrativa, bebe mais um copo. Diz que encontrando a donzela desmaiada, a levou para a janela e percebeu que estava com a irmã nos braços.

Última parte - O Último Beijo de Amor
Com Último beijo de amor, Álvares de Azevedo fecha a obra Noite na Taverna. Ao contrário dos outros, traz a narrativa em 3ª pessoa.
É noite alta na taverna, todos dormem. Entra uma mulher pálida, vestida de negro, procurando alguém com uma lanterna na mão. Vê Arnold, tenta beijá-lo, mas o deixa em paz, voltando-se para Johann, tornando-se, subitamente, sombria. Traz, além da lanterna, um punhal, que crava no pescoço deste último, enxugando as mãos ensangüentadas no cabelo do ferido. Vai até Arnold e o desperta. Ele a reconhece; é a irmã de Johann, agora transformada na prostituta Giorgia, a quem Arnold pede que lhe chame de Artur, como outrora.
O rapaz recorda-se do duelo, do tempo passado no hospital para se recuperar, o desespero e a vida de devassidão a que se entregou por não encontrar mais Giorgia. Deseja ficar junto dela agora, mas a moça acha que é tarde demais, pede-lhe apenas um beijo de despedida, porque vai morrer. Leva Arnold até o corpo de Johann, dizendo que o matou por ter sido por ele desonrada, a ela que era sua irmã. Arnold horrorizado cobre o rosto, enquanto Giorgia cai ao chão. Arnold aperta o punhal contra o peito e cai sobre ela, sufocando os dois gemidos de morte. A lâmpada apaga-se.