domingo, 6 de maio de 2018

Hilário Tácito (Madame Pommery)


Crônica de mudanças urbanas e sociais. Foi com o pseudônimo de Hilário Tácito que o engenheiro civil José Maria de Toledo Malta publicou, pela editora de Monteiro Lobato, em 1919, seu único romance, Madame Pommery. Ao longo do tempo, o volume foi sendo esquecido, ressurgindo através de um trabalho de preservação da memória pré-modernista, desenvolvido pelo setor de filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa. 

Madame Pommery é uma espécie de crônica de costumes, que tem como cenário a cidade de São Paulo do começo do século. Hilário preocupou-se em focalizar as rápidas transformações ocorridas no meio urbano, contemplando-as paralelamente à vida que se escoava divertida em um bordel, o Paradis Retrouvé em que os consumidores passam da "cervejada à champanha francês", em alusão às transformações ocorridas. 

O fio da meada é a história da prostituta polaca Madame Pommery, esperta, matreira, dotada de especial tino para "negócios" e as relações da cafetina com os círculos mais abastados da sociedade paulistana, que culminam com o enriquecimento e com o casamento de Madame Pommery e a consequente entrada para uma vida mais sóbria na sociedade. 

Em comentários paralelos, o narrador, em terceira pessoa, não omite o que lhe vai à cabeça, bem como tem por hábito explicar os processos que fazem parte da composição da obra, além de tecer considerações a respeito de suas observações.

Aspectos Relevantes como toda obra pré-modernista que se preze, a análise dos tipos sociais urbanos, a crítica ágil da hipócrita sociedade burguesa, numa denúncia da existência de dois Brasis, múltiplos em suas riquezas e composições é sempre o cerne de toda a narrativa. O discurso ágil e os galicismos são típicos ao traçar a coloquialidade da fala na escrita.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Sonhos D’ouro (José de Alencar)


Ricardo era um rapaz pobre e que saíra de São Paulo onde morava sua mãe, irmã e sua noiva Bela para ir à Corte tentar conquistar o suficiente para dar uma vida digna a elas. E foi no Rio de Janeiro, mais precisamente, na Tijuca, que teve seu primeiro encontro com Guida. Ele estava deitado na relva sonhando com as facilidades que a riqueza traria e beijava uma pequena flor que colhera e apelidara de sonhos d’ouro. Nessas circunstâncias foi que Guida o encontrou, enquanto fazia um passeio com sua dama de companhia e o Sr. Benicio, que tinha uma alma servil e trabalhava para ela. 

Depois deste primeiro encontro, Ricardo veio saber a partir de seu amigo Fábio, e noivo de sua irmã Luísa, que a moça era filha do “comendador” Soares e era uma das mais ricas e belas moças da corte. Ricardo inicialmente sabendo das travessuras da menina a julgou caprichosa. No decorrer dos dias sempre em passeios no Galgo, o cavalo que dividia em um revezamento com Fábio, encontrava-se casualmente com Guida. 

Ricardo morava com Fábio e D. Joaquina, mãe de seu amigo. Era costume dela, mesmo pobre, ajudar uma família que de vez em vez precisava de socorro. Foi graças a essas boas ações que um dia Ricardo, ganhando um dinheiro extra, resolveu ajudar a família, desencarregando D. Joaquina. Lá ele estava com seu caderno onde pintava e na página aberta estava uma aquarela em referência ao seu primeiro encontro com Guida. Nesse dia Guida também veio visitar essa família e inocentemente viu de relance o desenho de Ricardo. 

Guida era de fato linda e rica, era também caprichosa, mas era uma alma muito boa, gentil e brincalhona. Prova de sua natureza caprichosa foi o desejo insistente que lhe nasceu de descobrir porque Ricardo beijava tão ardentemente aquela flor do seu primeiro encontro, queria ver o desenho que ele fizera e queria possuir o cavalo do rapaz, o Galgo. 

Estando em um grupo em um passeio na Tijuca, Guida viu a pequena flor e se precipitou para colhê-la, porém era uma ação perigosa, e Ricardo que observava toda a cena, acabando de chegar àquele ponto, se adiantou e colheu as flores. Nogueira, um dos rapazes do grupo, cumprimentou a ele, pois tinham se formado juntos. 

Mais tarde, durante o almoço na casa de Soares, Guida convenceu Nogueira de convidar Ricardo e também o amigo do rapaz para irem jantar ali naquele dia. Ricardo já tinha negado o convite feito através de um dos trabalhadores da casa, não querendo se envolver com uma sociedade a qual não pertencia. Nogueira foi então atrás do colega, porém encontrou apenas Fábio e esse garantiu que ele e o amigo estariam lá. 

Ricardo só foi porque Fábio disse que havia dado sua palavra de honra. Assim passaram a noite muito bem, melhor Fábio que não tinha acanhamento em se “infiltrar” em meio as pessoas. No dia seguinte, lá estavam reunidos novamente para um passeio, Ricardo dessa vez foi temendo que negando o convite Fábio aceitasse e agisse de forma pior como vinha agindo, sem pudor algum. 

No passeio Ricardo concedeu que Guida fosse no Galgo. Durante todo o dia Ricardo a esteve observando, pois, o cavalo era muito afoito e um acidente era fácil. Observava também a Flávio que não parava de flertar com D. Guilhermina. Foi em um momento desses que Guida partiu em uma corrida no Galgo; Ricardo instantaneamente tentou alcançá-la, acabando com ela voltando em seu cavalo e ele no dele, e ela falando em como ele suporá mal se tivesse acreditado que ela esperava que ele a socorresse como heróis em romances. 

Ricardo já fadigado articulou um modo de escapar do resto do passeio. Porém, na sua tentativa de fuga, acabou seguindo apenas ele, Guida e o S. Benicio que insistia em cobrir-lhes com o guarda-sol. Enfim todos chegaram à casa de Soares e todos notaram como Ricardo e Guida chegaram conversando e rindo. Durante a noite todos já supunham que ele se juntava aos outros três concorrentes a marido e que ele era o escolhido. 

Assim, o visconde que participa da intimidade da casa, já se precipitou ao escritório de Ricardo para lhe propor uma negociação no casamento. Ele lhe ajudaria financiando o namoro e depois já casado Ricardo lhe prestaria favores. Mas a reação dele foi pôr o visconde pelas golas fora do seu escritório. Mais tarde Fábio contou tal fato a Guida e esta pediu ao pai que retirasse o visconde de seu círculo de amizade. 

Passou-se um bom tempo, e Guida completou seus dezenove anos, também nesse tempo Ricardo tinha avançado em seu escritório e já trabalhava com casos que lhe rendiam mais e tinha alugado um quarto. Guida, assim como combinara com o pai, deveria escolher um noivo e apresentá-lo ao pai e este, por sua vez, iria ver se concedia ou não o casamento pois não teriam um ano para ver qual dos dois se enganava sobre o candidato, Guida ou ele. 

Foi assim que em uma manhã, Soares conversou com sua filha, falou-lhe que era preciso que escolhesse um noivo, pois ele estava envelhecendo e não podia deixá-la solteira, uma vez que agora já muitos se aproximavam pelo dinheiro que eles possuíam e quando ela estivesse sozinha maior seria o número de especuladores. Assim Guida prometeu em um mês achar o rapaz. 

Sendo assim ela foi ter com sua avó e pediu que ela a ajudasse no encontro com o rapaz correto para ser seu noivo. Foi desse modo que Sr. Benecio chegou com um bilhete para Ricardo em que ele era chamado a casa da vó de Guida para resolver uma questão de advocacia. Chegando lá, Guida o recebeu afirmando que a vó estava a procura dos papéis. Assim, em conversa na sala enquanto a dama de companhia de Guida lia, a menina falou a Ricardo sobre um romance que lia, mas na verdade contava sua própria história. Afirmava que a heroína devia se casar agora que já tinha chegado na idade combinada com o pai, mas nunca homem algum tinha despertado seu coração, por isso seu pai escolhera um que julgava reto e gentil e pediu que ele se cassasse com ela e que assim vivessem em conveniência e quem sabe o amor surgiria.

Em seguida perguntou o que faria Ricardo se fosse tal homem, ao que ele respondeu que não poderia ser tal, pois ele já era comprometido e assim contou sua história de vida e de como estava na corte a fim de juntar vinte contos para quitar as dívidas da hipoteca e poder casar-se e dar uma vida ao menos digna para a esposa, para a mãe, e para poder pagar o dote da irmã. Depois disto Guida chamou a vó e elas encenaram o motivo de limites de terra pelo qual chamaram Ricardo ali. 

Foi em casa e no seu quarto que Guida viu surgir-lhe de repente o amor, amava Ricardo, mas não podia tê-lo, pois tal era desde a infância comprometido com a prima. Assim, a menina passou a viver como aqueles que sofrem do amor. 

Dias depois o pai, notando a diferença na filha, veio falar-lhe. A menina revelou tudo e também a vontade de conceder os vinte contos para fazer a felicidade dele. O pai cedeu à vontade da filha e também esqueceu a necessidade de casá-la. Assim Guida pediu a D. Guilhermina que se aproveitando do flerte que mantinha com Fábio descobrisse um modo de quitar as dívidas de Ricardo sem que esse recusasse tal ato. 

Foi deste modo que Guida, ouvindo a conversa de Fábio e D. Guilhermina, descobriu que a Bela havia rompido com Ricardo, que estava desolado. O fato era que em São Paulo, Luísa recebeu uma carta em que Fábio lhe contava como Ricardo não via o amor da mais rica e bela moça da corte por ser voltado ao amor por Bela, esta que lera a carta também. Porém na casa de Bela um amigo contava em uma carta que recebera que na corte Ricardo era um dos candidatos mais promissores a um rico casamento. Assim Bela, vendo que tal casamento era melhor para Ricardo, rompeu tudo com ele e aceitou se casar com um primo de escolha do pai. 

Ricardo tendo recebido a carta de Bela procurou Guida, os dois conversaram e quando ela leu a carta viu o que realmente se passava com a rival, que abandonava seu amor pela sorte dele. Aconselhou que Ricardo fosse a São Paulo e lhe explicasse todos os fatos, porém ele só escrevera uma carta bem fria e assim se confirmou as suspeitas de Bela, que se casou com outro. 

Saído a notícia do casamento de Bela, Ricardo ficou desolado e por muito tempo ele e Guida não se viram. Um dia enfim se encontraram no local de seu primeiro encontro. Guida, porém, estava com a saúde arrasada e perdera toda a vida de pouco tempo atrás. Ali os dois conversando relembraram o primeiro encontro foram colher a florzinha que ilustrara a cena. Guida desfaleceu nos braços de Ricardo e se pôs a chorar. Ele temia a morte da menina e a pediu que vivesse. Quando Guida questionou porque razão deveria viver, Ricardo afirmou que vivesse por ele. 

Foi assim que o casamento dos dois se arranjava em alguns dias. Mrs. Trowshy, a dama de companhia de Guida, se animava com a ida para Europa junto com a sua senhora. 

Sr. Benicio trabalhava no casamento. Fábio casara-se. Nogueira conformara-se com a advocacia administrativa. Guimarães foi para a Europa gastar a herança. Bastos continuava um bom encomendador.

domingo, 15 de outubro de 2017

Vinte mil léguas submarinas (Júlio Verne)

Em 1866, quando navios de diversas partes do mundo começaram a naufragar e sofrer misteriosas avarias, governantes e homens de ciência mobilizaram-se para identificar, localizar e deter o misterioso monstro marinho responsável por tais ataques. Mas a missão não correu conforme os planos, e a besta desconhecida destroçou a fragata que fora em sua captura. Lançados ao mar, o professor Aronnax, o fiel Conselho e o exímio arpoador Ned Land foram resgatados e feitos prisioneiros pelo enigmático capitão Nemo, dono, líder e principal habitante do prodigioso submarino Náutilo. Navegando águas remotas dos oceanos e lançando-se em ousadas caminhadas submarinas, esses homens desbravarão a vida por um ângulo inteiramente novo, descobrindo a exuberância da flora e da fauna marinhas e experimentando emoções conflituosas, numa viagem vinte mil léguas sob os mares. O autor preocupa-se em dar embasamento científico aos fatos narrados, fazendo uso das descobertas de seu tempo e aventurando-se em campos que seriam desbravados apenas no século seguinte. Por exemplo, a eletricidade, que engatinhava na época do autor, tem no submarino Náutilo papel de protagonista. Sem ela, não haveria o submarino. Os capítulos, sempre curtos, invariavelmente terminam no clímax e encadeiam-se com o seguinte. A técnica foi eficiente para manter o leitor interessado do começo ao fim da narrativa. A obra é recheada de extensas explicações científicas onde não falta poesia, como no trecho: “Os infusórios existem aos milhares numa gota d’água (...) num duplo movimento ascendente e descendente. Movimento perene, vida constante! Vida mais intensa que nos continentes, mais exuberante, infinita, expandindo-se por todo o oceano. Princípio de morte para o homem, princípio de vida para miríades de animais – e para mim!” Eis um livro do Século XIX que não perdeu a atualidade. É moderno no Século XXI. 

RESUMO DO LIVRO:

1 – O RECIFE FLUTUANTE 1866: Corriam boatos alarmantes: Enorme e estranho ser percorria o vasto oceano. Era mais veloz que uma baleia. Que o bicho existia era inegável. Em 20 de julho de 1866, o capitão Baker do navio Governador Higginson encontrara-o. Parecia um enorme recife, mas esguichava água como um descomunal mamífero aquático. Outros navios fizeram relatos semelhantes e concluíram que o “bicho” media aproximadamente 106 metros de comprimento. As mais diferentes especulações eram feitas no mundo todo, umas sisudas, outras irreverentes. Durante os primeiros meses de 1887, o assunto pareceu encerrado. 5 de março e 13 de abril de 1887, dois enormes navios sofreram sérias avarias: O Morávio e o Escócia. As embarcações colidiram com objetos estranhos onde não havia recifes ou outros obstáculos. Além disso, os acidentes ocorreram em locais distantes um do outro. Exames nas carenas dos navios revelaram que foram danificados por poderoso material perfurante. A partir, daí os boatos retornaram com força e amiúde havia relatos, fantasiosos ou reais, sobre a existência de um monstro marinho que estava afundando embarcações. A opinião pública manifestou-se exigindo providências das autoridades porque navegar estava sendo algo muito perigoso. 

2 – CONVITE INESPERADO: Célebre professor francês de História Natural, Pedro Aronnax, passando por Nova Iorque, deu uma entrevista a respeito do fenômeno que preocupava o mundo. Demonstrou refinado conhecimento e opinou que os mares tinham um novo e estranho habitante parecido com um narval, também chamado de unicórnio marítimo. O monstro seria um narval com tamanho e força decuplicados. A repercussão da entrevista foi imediata. Estados Unidos e Inglaterra foram de parecer que se devia libertar o oceano desse monstro terrível. Uma fragata velocíssima, a Abraão Lincoln, sob o comando do capitão Farragut ficou de prontidão, mas os ataques cessaram mais uma vez. Dois de julho de 1887. Chega aos Estados Unidos a notícia de que um navio encontrara o animal, três semanas antes, nos mares do Pacífico norte. Abraão Lincoln prepara-se para ir ao encontro do monstro. O Professor Aronnax, por telegrama, é convidado a fazer parte da expedição. Aceita com entusiasmo, esquecendo-se até do cansaço que o atormentava. 

3 – UM CRIADO INIGUALÁVEL: Pedro Aronnax levaria consigo o ótimo criado Conselho. Apesar do nome, era um flamengo extremamente discreto. Educado e atencioso era versadíssimo na teoria da classificação. Era um homem digno e corajoso. Tinha 30 anos, 10 a menos que o patrão. Era, ao mesmo tempo, cerimonioso, digno e corajoso. Advertido sobre os perigos da aventura, aceitou-os sem fazer perguntas. Na partida, o cais de Brooklyn estava apinhado de curiosos. Um imenso cortejo acompanhou a saída da fragata Abraão Lincoln que, às oito horas da noite, cortou a todo o vapor as águas do Atlântico. 

4 - NED LAND: O capitão e a tripulação estavam motivados. Queriam espostejar o monstro o quanto antes. O primeiro a avistar o animal ganharia dois mil dólares. O navio estava muito bem equipado, mas a principal arma era um homem: o irascível e temperamental Ned Land, com cerca de 40 anos, o rei dos arpoadores. Era um canadense de Quebec. Logo, falava francês. Por isso, facilmente fez amizade om o Professor Pedro Aronnax. Da tripulação, o único a duvidar da existência do monstro era ele e não adiantavam as explicações científicas do professor. A fragata avançava na direção do Pacífico contando apenas com um acaso favorável para encontrar o monstro. 

5 – O ACASO NOS FAVORECE: A fragata perlongou a costa sudeste da América com rapidez prodigiosa. No dia 6 de julho começou a navegar pelo oceano Pacífico. Toda a tripulação, incluindo o professor que não estava interessado nos dois mil dólares, perscrutou detidamente o mar à procura da criatura. Apenas Ned Land continuava cético e não se dignava a observar o oceano. O professor Pedro Aronnax não se cansava de reprovar o arpoador. Navegavam às cegas. Naturalmente, Aronnax sabia que as possibilidade de sucesso eram remotíssimas. Algumas estratégias facilitavam a busca. O capitão Farragut opinava que era melhor singrar águas profundas porque o animal era muito pesado; passagens estreitas também eram evitadas devido ao tamanho do monstro. A procura infrutífera já durava três longos meses. O desânimo dominou os espíritos. Só restava aos navegantes retornar a Nova Iorque. O capitão Farragut resistia à ideia e pediu três dias de tolerância. Se não houvesse resultado positivo, concordava em retornar. Eram 2 de novembro. No dia 5 de novembro, quando o professor e o seu criado Conselho já calculavam que seriam alvo de gozações na França por causa do insucesso da empreitada, aconteceu algo notável. Ned Lang, o único cético da tripulação, gritou anunciando que avistara a coisa que procuravam. 

6 – O COMBATE: Houve grande agitação em torno do arpoador. Até o capitão fazia parte da massa. Ned não se enganara e os tripulantes observaram que o monstro emitia forte luminosidade. A fonte brilhante descrevia no mar imenso um alongado oval. O unicórnio marítimo desenvolvia alucinante velocidade, pois a luz deslocava-se por muitas milhas e retornava. Não houve alternativa: Sob as competentes ordens de Farragut, a fragata Abraão Lincoln afastou-se rapidamente do foco luminoso. O esforço foi inútil e a fragata ficou à mercê das vontade do animal que a atingiria quando bem entendesse. Em vez de perseguir, a fragata era perseguida. Perguntado pelo capitão Farragut, o professor Pedro Aronnax esclareceu que estavam diante de um narval gigantesco e ao mesmo tempo elétrico. Às oito horas da manhã, desfazendo-se a neblina, a coisa foi reavistada por Ned Land que preparou o seu mortífero arpão. O professor avaliou o seu comprimento em oitenta e cinco metros, tendo a grossura proporcional al comprimento. O esguicho de jatos de vapor d’água que produzia, atingia quarenta metros de altura. O capitão Farragut ordenou a aproximação arriscada. A tripulação ficou excitada com a iminência do combate. O animal fugia na mesma velocidade empreendida pelo Abraão Lincoln. Não adiantava aumentar a velocidade da embarcação. O motivado Ned Land concluiu que aquele animal só se deixaria agarrar se quisesse. Meio-dia soou e estavam tão adiantados como às cinco da manhã. O capitão decidiu-se, então, a empregar meios mais decisivos. Resolveu lançar granadas cônicas. O projétil ricocheteou no monstro. Parecia ser blindado. Às 10 horas da noite, encontraram novamente o monstro. Estava dormindo. Ned Land lançou o arpão que não produziu o efeito desejado. Um choque medonho produziu-se e o professor foi lançado por cima da amurada caindo no mar. 

7 – ESTRANHA BALEIA: Quando parecia perdido, Aronnax foi salvo pelo fiel criado Conselho. Este informou ao patrão que o monstro partira com os dentes o mastro e o leme de Abraão Lincoln. Eram ínfimas as possibilidades e salvarem-se. A colisão entre a fragata e o cetáceo dera-se por volta das onze da noite. Pesavam em nadar por oito horas até o nascer do Sol. Logo veio a exaustão. A fragata estava muito distante. Conselho gritou pedindo socorro. O socorro veio a tempo. O anjo foi Ned Land. Conselho e o Pedro Aronnax foram levados, entre muitas aventuras, até algo parecido com uma sólida embarcação. Quando estavam mais ou menos restabelecidos, o arpoador disse-lhes que não desistiu do monstro em nenhum momento e que a criatura era feita de chapas de aço. O animal que mobilizara o mundo inteiro era um fenômeno fabricado pela mão do homem. A conversa desenrolava-se sobre o dorso de um barco submarino com a forma de gigantesco peixe de aço. O barco deslocava-se lentamente, na superfície, e Ned, Conselho e Aronnax procuravam um meio de atingir o seu interior. Tinham, também, grande receio de que o engenho submergisse. Quando o dia amanheceu, oito sólidos rapagões, mascarados, apareceram e arrastaram o trio para o interior da formidável máquina. 

8 – UMA INICIAL E UMA DIVISA: Foram instalados numa espécie de masmorra. Depois de meia hora, a prisão iluminou-se. Depois de alguns minutos, apareceram dois homens. Um tinha aparência vulgar, mas, o segundo, apresentava feições imponentes. Os amigos contaram em francês, inglês, alemão e latim a sua aventura. Não foram compreendidos. Os tripulantes do estranho barco, retiraram-se sem deixar qualquer pista do que fariam. Ned Land estava particularmente revoltado com a atitude dos estranhos. Afinal, falaram que estavam esgotados e famintos, fizeram mímica indicando a penúria que viviam e os tripulantes não fizeram nenhum esboço de haverem entendido a mensagem. Eis que se abriu novamente a porta e lhes foi servido um banquete inesquecível. As iguarias eram exóticas, mas de sabor agradabilíssimo. Além disso, trouxeram-lhes confortáveis roupas confeccionadas com um tecido nunca visto, mas muito confortável. Nos pratos e talheres havia a inscrição: “MOBILIS IN MOBILE N” (Móvel no elemento movente). Depois das refeição, os três, mais tranquilos, caíram em pesado sono. 

9 – VIOLÊNCIAS DE NED LAND: O professor, o primeiro a acordar, percebeu que o barco, o monstro de chapa de aço, subia regularmente à superfície, para respirar à maneira das baleias. Assim funcionava o sistema de ventilação do barco submarino. Os outros dois prisioneiros também acordaram e estavam com fome. As pragas de Ned pela situação vivida contrastavam com as plácidas ponderações de Conselho. Conciliador, Aronnax sugeriu que esperassem e sujeitassem-se às circunstâncias, porque não havia outra alternativa. Como a fuga era impossível, Ned sugeriu que tomassem a embarcação. O professor conseguiu aparentemente demovê-lo da malbaratada ideia. As atitudes do arpoador, praguejando sempre, desmentiam a sua disposição de submeter-se ao cárcere. Lamentava-se, praguejava, andava como fera em redor da jaula, batia nas paredes com os pés e com os punhos. Finalmente, entrou o taifeiro. Impensadamente, Ned atacou-o. Uma voz falou em impecável francês: “Acalme-se, mestre Land, e o senhor, professor, tenha a bondade de ouvir-me.” 

10 – O HOMEM DAS ÁGUAS: Era o comandante que assim falava. Repreendeu-os por haverem interrompido a privacidade de alguém que havia rompido relações com a humanidade. O professou explicou-lhe que a fragata Abraão Lincoln julgava estar na caça de possante monstro marinho. Depois de informar que renegara a civilização, e que, portanto, não lhe cobrassem atos civilizados, disse que os prisioneiros gozariam de relativa liberdade no interior do navio. Apenas teriam que se sujeitar a pequenos períodos reclusos quando fossem necessárias atividades secretas na embarcação. O comandante disse ainda que ele fora o atacado e que vencera. Portanto, tinha todo o direito de estabelecer as regras. No final, disse que estudioso da obra do professor e que ele seria muito útil naquela viagem para o país das maravilhas. O comandante identificou-se: Gostaria de ser chamado de Nemo, capitão do navio Náutilo. Ned e Conselho foram levados de volta à cela para jantarem. O professor foi convidado por Nemo para fazer a refeição em sua sala de jantar particular. Alimentaram-se de iguarias produzidas a partir de matérias primas fornecidas pelo mar. Aquele vasto mar, não apenas alimentava a tripulação, mas também vestia-a. As roupas eram confeccionadas com tecidos manufaturados de seres marinhos. O mesmo acontecia com os colchões, os perfumes. No Náutilo, tudo provinha do mar. Depois de fazer alentado discurso sobre a fartura de alimentos no mar, Nemo convidou Pedro Aronnax para uma visita ao Náutilo. 

11 – O NÁUTILO: O passeio começou pela biblioteca esplêndida que continha 12 mil volumes com temas científicos e artísticos. Era um ambiente muito confortável e bem iluminado que, certamente, honraria qualquer palácio. Nemo ofereceu ao professor um cigarro excelente. Não era feito de fumo, mas de uma alga marinha rica em nicotina. Passaram para um grande museu ricamente decorado onde havia trinta quadros de mestres, tapeçarias de desenhos sóbrios, reduções admiráveis de estátuas de mármore, partituras de músicas representativas. Para o capitão, eram as últimas lembranças da terra, para ele, já morta. Havia, no espaço do museu, uma parte dedicada a preciosos produtos do mar jamais vistos por um naturalista, profissão de Aronnax: Exemplares de moluscos, colares de pérolas, pérolas cor-de-rosa, amarelas, azuis, negras. Algumas das pérolas eram maiores que ovos de pomba. Mexilhões de rios nórdicos e uma infinidade de objetos e seres exóticos. Finalmente, entraram no camarote destinado ao professor. Na verdade, era um elegante quarto com cama, penteadeira e outros itens. No camarote do capitão havia muita simplicidade. Continha apenas o necessário. Lá, o capitão explicou a Aronnax o conteúdo do capítulo seguinte. 

12 – A ELETRICIDADE REINA: O capitão começou explicando as funções de aparelhos habituais em navios. Depois, explicou as de outros exigidos pela natureza especial de um submarino. Enfatizou que algo era indispensável na embarcação: A eletricidade, que era gerada por meio de um complicado processo que aproveitava o sódio existente no mar para carregar as potentes “pilhas” do navio. Vendo as maravilhas que a eletricidade podia fazer, o professor afirmou que aquela força estava destinada a substituir o vento, a água e o vapor. As surpresas apenas começavam. Foram à cozinha onde o fogão era elétrico. Nos banheiros, a água quente era obtida por meio da eletricidade. Tudo no navio funcionava eletricamente. Ante a curiosidade crescente do professor, o capitão dispôs-se a contar segredos mais complexos do Náutilo. Afinal, Aronnax nunca mais sairia de seu interior. 

13 – ALGUNS DADOS NUMÉRICOS: Náutilo tinha a forma de comprido cilindro de extremidades cônicas. Foi construído para desafiar os mares mais tempestuosos. Não havia a possibilidade de sofrer deformações, porque o duplo casco dava a ele a rigidez do aço. Não havia velas que o vento pudesse arrancar. Não havia caldeiras que corriam o risco de explodir. Não havia perigo de incêndio, pois o navio era feito de chapas de aço, não de madeira. O abastecimento de carvão não preocupava porque o barco era movido a eletricidade. Não temia-se abalroamentos, pois navegava em águas profundas. O professor perguntou ao capitão qual era o volume de sua fortuna. Este respondeu que possuía o suficiente para pagar, folgadamente, os dez bilhões de francos de dívida da França. 

14 – O RIO NEGRO: O capitão fez com que o Náutilos emergisse. Marcou, usando instrumentos precisos, a latitude e a longitude. Apercebeu-se de que estavam a cerca de trezentas milhas das costas do Japão. Então, solenemente informou que naquele dia, oito de novembro, começava a viagem de exploração marítima. Dirigiram-se ao grande salão, onde o professor ficou só. O mar, da mesma forma que os continentes, também tem seus rios. São correntes especiais, reconhecíveis pela temperatura e pela cor. No ponto indicado pelo capitão no planisfério, fluía uma dessas correntes: o Rio Negro. Era esta a corrente que o Náutilo estava percorrendo. Chegaram Ned e Conselho que ficaram maravilhados. Interrogavam o professor, quando, de repente, o salão escureceu e abriram-se várias escotilhas: a visão foi indescritível: Não viam água luminosa, mas luz líquida. Um mundo diferente descortinou-se. Uma fauna diversificada agitava-se em buliçosas brincadeiras. A escuridão do salão realçava a claridade exterior; parecia que estavam num imenso aquário. Quando o salão foi novamente iluminado, fecharam-se as escotilhas: Ned e Conselho retiraram-se para os seus dormitórios.O professor passou a noite lendo, escrevendo e pensando. Adormeceu enquanto o Náutilo singrava através da rápida corrente do rio Negro. 

15 – CONVITE POR ESCRITO: Nove e dez de novembro: O professor trabalhou no salão e Nemo não apareceu. Ned e conselho passaram a maior parte do tempo com ele. No dia onze o navio emergiu. O professor subiu até o observatório e ouviu o imediato dizer através da escotilha: “Nautron respoc lorni virch.” Em cinco dias seguidos a situação se repetiu. No dia 16, havia um convite na mesa de trabalho do professor. Era para uma caçada nas florestas da Ilha Crespo no dia seguinte. Ned e Conselho também poderiam participar da diversão. No dia dezessete, o capitão finalmente apareceu. Disse que a caçada iria acontecer em florestas submarinas e que usariam fuzis. Aronnax achou que o capitão enlouquecera. O professor não conseguia conceber a caçada marítima sem oxigênio. Nemo explicou-lhe os fundamentos do tubo de oxigênio e de como seria usado. Explicou que usariam fuzis de ar comprimido, não de pólvora, evidentemente. Em seguida, o quarteto retirou-se para vestir as roupas adequadas à aventura. 

16 – A PÉ PELA PLANÍCIE SUBMARINA: A roupa para a caça era como uma armadura ao mesmo tempo flexível e resistente. Com exceção de Ned, que estava frustrado por pensar que caçariam em florestas tradicionais, Todos vestiram-se rapidamente. O manejo do fuzil a ar comprimido e municiado por balas elétricas era facílimo. Após manobras precisas, pisaram o fundo do mar. Por encanto, os pesados petrechos que usavam perderam grande parte do peso. Puderam, assim, andar confortavelmente num piso plano de areia a 10 metros de profundidade. A água era límpida e proporcionava um raio de visão de 100 metros. A planície de areia parecia interminável. O cenário era deslumbrante e mudava constantemente. As algas pareciam um prodígio da Criação, uma das maravilhas da flora universal. A impressão era a de que estavam num caleidoscópio. Atingiram a profundidade de 100 metros. Duas horas de caminhada não produziram cansaço. Os movimentos, auxiliados pela água, eram feitos com surpreendente facilidade. Em dado momento, o capitão sinalizou que estavam às portas da floresta da ilha Crespo. 

17 – A FLORESTA SUBMARINA: Chegaram. Altas plantas arborescentes formavam aquela floresta. Tudo desenvolvia-se verticalmente. O professor ficou confuso porque a fauna e a flora eram muito parecidos. Em local apropriado, todos dormiram um belo sono que durou até o início da noite. Ao acordar, Aronnax deparou-se com um enorme crustáceo, uma aranha do mar de cerca de um metro de extensão. Passou a ter mais cautela em sua movimentação no fundo do mar. Atingiram 150 metros de profundidade e tiveram que acionar as lanternas. A vida vegetal rareava e, em contrapartida, um número prodigioso de animais surgia. Alcançaram o local em que a floresta terminava em um trecho de escarpas elevadas. O capitão sinalizou que deviam regressar. Nemo caçou uma lontra marítima e um albatroz. Encontraram um cardume de enormes tubarões que enganaram com facilidade devido à fraca visão dos monstros. Finalmente, adentraram à segurança do Náutilo. O professor voltou ao camarote, maravilhado com aquela surpreendente excursão ao fundo dos mares. Era noite de dezessete de novembro. 

18 – QUATRO MIL MILHAS SOB AS ÁGUAS DO PACÍFICO: O dia dezoito começou com a rotina de sempre. O imediato pronunciou a mesma frase no idioma estranho que se falava a bordo. Foram recolhidos cerca de 500 quilos de peixe, o necessário para alimentar a grande tripulação. No dia 27 de novembro, as medições do professor informavam que haviam percorrido quatro mil, oitocentos e sessenta léguas desde que embarcara com Ned e Conselho no misterioso Náutilo. De quatro a onze de dezembro, o submarino percorreu mais duas mil milhas. O mar continuava a prodigalizar magníficos espetáculos durante a travessia. Em onze de dezembro algo interrompeu a paz. A presença de um navio naufragado que estava a cerca de 1000 metros de profundidade. O naufrágio se dera, certamente, há poucas horas e alguns cadáveres, observados por tubarões, forneciam macabro espetáculo. Entretanto, o Náutilo, contornou o navio e o professor leu em seu casco: FLORIDA – SUNDERLAND. 

19 – VANICORO: Aquele terrível espetáculo iniciava a série de catástrofes que o Náutilo iria encontrar. Passaram por inúmeros destroços. Em 25 de dezembro, o capitão avistou as ilhas Vanicoro, palco do célebre naufrágio dos navios do explorador La Pérouse. Estavam diante da ilha que Dumont d’Urville impusera o nome de ilha da Busca. No fundo do mar, jazia o navio naufragado. O capitão, passando pelo navio afundado, enalteceu a morte dos marinheiros. Mais tranquila que aquela tumba de coral não havia. Desejou a sorte de ter um repouso igual. 

20 – O ESTREITO DE TORRES: Durante a noite de vinte e sete para vinte e oito de dezembro de 1862, o Náutilo abandonou as paragens de Vanicoro em grande velocidade. O professor Pedro Aronnax e seu criado Conselho estavam bem adaptados, o mesmo não se podia dizer de Ned Land. Dois de janeiro: onze mil, trezentas e quarenta milhas ou cinco mil e duzentas e cinquenta léguas foram vencidas desde a partida. A intenção do capitão Nemo era alcançar o oceano Índico, passando pelo estreito de Torres, lugar habitado por perigosos selvagens, os papuas da Nova Guiné. Finalmente, o Náutilo alcançou a entrada do mais perigoso estreito do mundo por causa dos enormes recifes de coral. A imensa quantidade de ilhas, ilhotas, cachopos e abrolhos tornavam a navegação quase impraticável. O Náutilo parecia deslizar, como por magia, por entre aqueles ameaçadores recifes até que encalhou. Eram 4 de janeiro. Calmamente, o capitão disse que aguardariam a lua cheia do dia nove. Ela provocaria uma maré suficientemente alta para desencalhar o submarino. Ned alvoroçou-se, pois vislumbrou a possibilidade de ir à terra firme caçar. Sonhava com uma carne grelhada. Contra todos os prognósticos, o capitão não se opôs e até emprestou um barco. A possibilidade de fuga era nula. No dia 5 de janeiro, às oito horas, armados de fuzis e de machados, o professor, Conselho e Ned abandonaram o Náutilo. Às oito e meia estavam na praia. 

21 – NA FLORESTA TROPICAL: Comovidos, tocaram o solo pela primeira vez após dois meses de cativeiro no submarino. Estavam pisando a ilha de Gheberoar em território malaio. Imediatamente saborearam extasiados bastante água de coco. Passaram a colher vegetais comestíveis, inclusive a deliciosa fruta-pão. Esta foi convenientemente preparada na brasa. Por volta do meio-dia, tinham conseguido grande provisão de bananas, mangas saborosas e ananases de tamanho incrível que levariam ao submarino. Às cinco da tarde deixaram a praia da ilha e meia hora depois atracavam no Náutilo. No outro dia cedo, voltaram à ilha de Gheberoar, atracando noutro local. Chegara a hora de caçar animais de quatro patas. Viram grande quantidade de aves e conseguiram capturar viva uma valiosa ave-do-paraíso. Conselho, com grande admiração para ele próprio atirou e acertou duas vezes, assegurando o almoço. Abateu um pombo branco e uma pomba-rola que foram assados. Por volta das duas horas, Ned Land matou um porco do mato, prosseguindo, abateu cinco cangurus-coelhos, pequenos, mas de carne saborosa. Às seis da tarde votaram à praia. Ned preparou o carnívoro jantar com todo o esmero, não se esquecendo das costeletas de porco. O arpoador canadense, entusiasmado como estava, sugeriu que não voltassem mais ao Náutilo. Exatamente naquele momento, veio cair aos seus pés uma pedra que cortou pela raiz a sua proposta. 

22 – O RAIO DO CAPITÃO NEMO: Vinte nativos armados de arcos e fundas atacaram-nos. Fugiram para o bote. As pedras e as flechas choviam. Conseguiram chegar ao navio. Avisado do perigo, o capitão reagiu com calma, garantindo que o Náutilo estava seguro. Estava tocando piano e não interrompeu a sua atividade. Às seis da manhã, do dia oito de janeiro, os selvagens continuavam na praia. Eram 500 ou 600. Quase todos armados de arco, flecha e escudo. Traziam ao ombro uma espécie de sacola cheia de pedras arredondadas que suas fundas lançavam com muita habilidade. Indiferente, Ned preparava a carne para o almoço. De repente, cerca de vinte pirogas cercaram o Náutilo. Uma nuvem de flechas abateu-se sobre ele. O professor avisou o capitão que apenas mandou fechar as escotilhas. Aronnax advertiu-o que no dia seguinte teriam que abri-la para renovar o ar do navio. Nemo não se alterou. O capitão garantiu que no dia seguinte, às duas e quarenta da tarde, o Náutilo flutuaria e deixaria o estreito de Torres, sem ter sofrido avaria. O dia seguinte chegou. Às duas e trinta e cinco o capitão Nemo ordenou que os tripulantes abrissem as escotilhas. O professor falou que os papuas iriam entrar. O capitão garantiu, então, que ninguém entraria. Os nativos que tocavam no navio eram instantaneamente repelidos por algo invisível e corriam vociferando. Foi estendida uma corrente elétrica entre os selvagens e o submarino que ninguém transporia impunemente. Na hora determinada pelos cálculos do capitão, o Náutilo desencalhou lentamente e deslizou pela superfície do oceano, são e salvo, nos canais do estreito de Torres. 

23 – SONO AFLITO: Durante vários dias, o tempo do professor e do capitão foi dedicado a experiências variadas, que tinham por objeto o grau de salinidade das águas a diferentes profundidades, a sua eletrização, a sua coloração, a sua transparência. Dia 18 de janeiro. O capitão e o imediato trocavam tensas impressões. Nemo estava irreconhecível, pois perdera a habitual calma. Depois, dirigiu-se ao professor e disse-lhe que teria de aprisioná-lo e a seus companheiros provisoriamente. Na cela, almoçaram. Logo depois, foram tomados por irresistível sono. Foi impossível resistir. Pesadelos mórbidos apoderaram-se do professor que teve estranhas visões que logo desapareceram. Certamente, poderosos soporíferos foram colocados na refeição. 

24 – O REINO DE CORAL: Os três prisioneiros foram dominados por pesado sono. Acordaram nos respectivos camarotes. Por volta das duas horas da tarde, o professor estava no salão, quando o capitão abriu a porta e entrou. Estava inquieto. Sua aparência denotava que passara a noite em claro. Perguntou ao professor se ele era médico. Ante a resposta afirmativa, levou-a a um camarote onde estava estendido numa cama um homem seriamente ferido. O professor diagnosticou que o doente morreria dentro de duas horas. A mão do frio capitão Nemo crispou-se e algumas lágrimas correram de seus olhos. No outro dia, o capitão convidou os “hóspedes” para uma excursão marítima. Na companhia de uma dúzia de tripulantes. Vestiram-se para o passeio submarino. Tomaram pé a uma profundidade de 10 metros. Pisavam um Reino do Coral. Caminharam. Verdadeiras matas petrificadas abriram-se diante de seus passos. Depois de duas horas de marcha, haviam atingido a profundidade de cerca de trezentos metros. Descortinou-se, numa clareira, uma imensa floresta de corais. Espetáculo indescritível. O professor percebera que os tripulantes carregavam um objeto oblongo todo coberto. Na clareira, cavaram um buraco. Aquela clareira era um cemitério, aquele buraco, uma cova e o objeto oblongo era o homem que morrera durante a noite. O homem morto estava seguro, enterrado nos corais, fora do alcance dos tubarões e dos homens! ... 

25 – OCEANO ÍNDICO: A cena comovente do enterro encerrou a primeira parte da viagem submarina. Alguns acontecimentos tornavam o professor meditativo: o mistério daquela noite em que foram imobilizados pela dupla cadeia do enclausuramento e do sono, a precaução do capitão não permitindo que ele devassasse o horizonte e o ferimento mortal daquele homem. Tudo levava a crer que o Náutilo fosse o instrumento de misteriosas e terríveis represálias. Haviam percorrido seis mil léguas pelo Pacífico. Entraram nas águas transparentes do oceano Índico. Viram através da escotilha muitos exemplos da fauna daquele oceano. A vinte e sete de janeiro, na entrada do golfo de Bengala, surgiram cadáveres no mar. Eram os mortos das cidades hindus, arrastados pelo Ganges até o alto mar. Depois passaram pelo “mar de leite”: grande extensão de ondas brancas, frequentes naquele oceano e nas ilhas Moluscas. Eram o resultado da aglutinação de miríades de micro-organismos. 

26 – NOVO CONVITE DO CAPITÃO NEMO: No dia 28 de janeiro, o Náutilo singrava as águas territoriais do Ceilão, célebres por suas pescarias de pérolas. O capitão convidou o professor a visitar uma região pesqueira. Aproveitou para falar da terrível vida levada pelos pescadores de pérolas, fadados a viver pouco. Marcaram o passeio para a madrugada seguinte: além de apreciar o banco de ostras, teriam a oportunidade de caçar tubarões. O convite fora estendido aos companheiros de Aronnax. Aronnax temia os tubarões. Tentou fazer com que Conselho e Ned desistissem da aventura. Inutilmente. Teve que conformar-se e aceitar o perigoso passeio. 

27 – UMA PÉROLA DE DEZ MILHÕES: Às quatro da madrugada, os viajantes entraram no bote que os levaria à ilha de Manar, local do rico banco de ostras. Seis horas da manhã. A um sinal do capitão, a âncora foi fundeada próximo à ilha de Manar. Vestidos convenientemente e armados, os valentes viajantes mergulharam. Por volta das sete horas, pisaram, finalmente, o banco de ostras. Sob a orientação do capitão, Aronnax, Conselho e Ned entraram numa grande gruta. Nemo sabia o que iria encontrar e deixou os companheiros deslumbrados, pois viram uma pérola que valia verdadeira fortuna. O molusco que guardava a pérola pesava uns trezentos quilos. O capitão, cuidadosamente deixou a pérola exposta. O seu tamanho era semelhante ao de um coco. Apenas o capitão sabia do local onde estava a preciosidade. Não tinha pressa de pegá-la. Esperava que crescesse mais para ter ainda maior valor. Valia, seguramente, 10 milhões de francos. Resolveram voltar. No caminho, viram um enorme tubarão atacando um pescador hindu. Preparava-se para cortar o pescador em dois, quando o capitão Nemo, empunhando um punhal, foi lutar corpo a corpo com o animal. Exausto, o capitão caiu ao solo, derrubado pela enorme massa ferida que pesava sobre ele. Estaria liquidado se Ned Land não atingisse com certeiro golpe o coração do monstro. Ned Land libertara o capitão. Às oito e meia estavam de volta ao Náutilo. O professor perguntou a Nemo o porquê dele haver arriscado a vida pelo hindu. O capitão respondeu simplesmente que aquele homem era um habitante do país dos oprimidos e que ele também pertencia àquela nação. 

28 - O MAR VERMELHO: Vinte e nove de janeiro. Haviam navegado dezesseis mil e duzentas e vinte milhas, ou sete mil e quinhentas léguas desde o ponto de partida no mar do Japão. Eram há três meses prisioneiros a bordo do Náutilo. Durante quatro dias, até três de fevereiro, o submarino percorreu o mar de Omã. Finalmente, chegou ao mar Vermelho. O professor e o capitão trocaram ideias sobre o inóspito mar Vermelho. Ele foi cenário de inúmeros naufrágios na época em que não havia sofisticados instrumentos de navegação e os barcos eram feitos de madeira. Nemo explicou que o nome do mar se originou do afogamento dos exércitos do Faraó, quando Moisés ordenou que as ondas se fechassem, depois da passagem dos israelitas. Coalhado de sangue, recebeu o nome que o imortalizou. Pelo menos é o que rezava a lenda. Nemo informou que a próxima etapa seria o Mediterrâneo. Atingiriam rapidamente o objetivo graças a uma descoberta que fizera: um canal que ligava os dois oceanos. Dera-lhe o nome de Túnel Arábico. 

29 – O TÚNEL ARÁBICO: Ainda no mar Vermelho, Ned avistou um leão marinho. Ficou excitado para caçá-lo. O capitão autorizou-o. Embarcados no bote, 12 tripulantes e os “hóspedes” iniciaram a perseguição. A luta foi terrível. Mas, no final, a fera de 7 metros e 5 toneladas foi morta. O leão marinho foi esquartejado sob a supervisão de Ned Land. A carne foi preparada brilhantemente pelo cozinheiro de bordo. Durante os próximos dias houve fartura de caça. Quando chegaram ao túnel Arábico, o próprio capitão guiou o submarino devido ao grande perigo da travessia. Fê-lo com perícia. Às dez horas e trinta e cinco minutos do dia 11 de fevereiro, o capitão Nemo anunciou que haviam entrado no Mediterrâneo. Em menos de vinte minutos, o Náutilo atravessara o istmo de Suez. 

30 – O ARQUIPÉLAGO GREGO: Ned demorou a acreditar que haviam chegado no Mediterrâneo. Quando, afinal, certificou-se, ficou animado. Propôs aos companheiros que abandonassem o Náutilo, pois estavam na Europa. O professor, que estava motivado pelos seus complexos estudos a bordo do submarino não era adepto da ideia, mais, pressionado pelos sólidos argumentos do arpoador canadense, submeteu-se a sua vontade. Apenas alertou que a primeira tentativa tinha que ser coroada de êxito, porque, se abortasse, nunca mais teriam ocasião de repeti-la. Aquela conversa, mais tarde, teria graves consequências. Do salão, ao lado do capitão, enquanto fazia os seus estudos através da escotilha aberta, Aronnax viu um mergulhador ao lado do Náutilo. Não era um náufrago e comunicou-se por sinais com Nemo. Logo depois, o submarino emergiu. O Barco foi preparado para navegar e o fez com uma grande carga de barras de ouro. O episódio deixou Aronnax intrigado. Continuaram a viagem pelo arquipélago grego e presenciaram até uma erupção vulcânica abaixo da superfície do mar. No dia seguinte, dezesseis de fevereiro, o Náutilo, passando ao largo de Cerigo, abandonava o arquipélago grego, depois de dobrar o cabo Matapã. 

31 – TRAVESSIA RELÂMPAGO: Partindo dos arredores da Grécia, na manhã de dezesseis de fevereiro, no dia 18, ao despontar do sol, já haviam transposto o estreito de Gibraltar. O Náutilo desenvolveu grande velocidade. Parecia que aquele lugar da Europa trazia más recordações ao capitão que queria ficar logo livre do trecho que, provavelmente, evocava algo triste. Em alta velocidade, já estavam alcançando o estreito de Gibraltar e abandonando a Europa. A África aproximava-se e escombros de naufrágios apareciam à vista dos aventureiros. Apresentava-se um vasto ossuário, onde tantas riquezas se perderam, onde tantas vítimas encontraram a morte. A dezoito de fevereiro, às três horas da manhã, surgiu o estreito de Gibraltar. Alguns minutos depois, singravam as águas do Atlântico. 

32 – A BAÍA DE VIGO: Vasto Atlântico, quase ignorado pelos antigos. Recebe os maiores rios do mundo. O Náutilo singrava-lhe as águas, depois de haver navegado perto de dez mil léguas em três meses e meio. Ned estava a ponto de enlouquecer por ver frustrados os seus desejos de fuga. O professor tentou tranquilizá-lo, dizendo que certamente teriam sucesso quando passassem por Portugal, Espanha ou França. Estava provado que o capitão não evitava os lugares habitados. Land comunicou que já tinha tudo preparado. Iriam fugir às nove da noite, quando o submarino navegaria nas proximidades da Espanha. Aronnax permaneceu em seu quarto, alegre pela possibilidade de fuga e triste por ter que abandonar aquele sofisticado centro de pesquisa. O capitão não aparecia há semanas. Aquele dia de expectativa parecia interminável. A porta do camarote do capitão estava entreaberta. Aronnax entrou e viu pinturas que retratavam grandes libertadores da humanidade decorando as paredes. Chegou a hora fatal, nove horas. Nem sinal do capitão. O submarino assentou-se no solo, contrariando a sua rotina. O professor teria que encontrar Land para dizer-lhe que tinha de adiar o projeto. Aguardou-o no salão de trabalho. Inesperadamente, Nemo surgiu no salão e falou do porquê do desvio de rota. Disse que estavam na Baía de Vigo, Espanha, onde havia no fundo uma fortuna em lingotes de prata, ali jogados em 1702 por motivos políticos que explicou detalhadamente.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O Leopardo (Giuseppe Tomasi Di Lampedusa)


O livro se inicia com a frase final da oração da Ave Maria: "Nunc et in hora mortis nostrae. Amen". 

Situado na década de 1860, o romance II Gattopardo, “O Leopardo”, um dos clássicos da literatura italiana, é a única obra de Giuseppe Tomasi, Príncipe de Lampedusa. 

Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, um aristocrata siciliano apaixonado pelas letras, quando escreveu O Leopardo enfrentava uma doença que o iria matar logo depois de concluir a obra. Durante sua vida, o romance foi rejeitado pelos editores aos quais fora submetido, o que desapontou muito Tomasi. Em 1957, Tomasi Di Lampedusa que tinha recebido diagnóstico de câncer falecera em 23 de julho em Roma. Seu romance foi publicado somente dois anos após sua morte. 


Resumo: 

Romance histórico situado na segunda metade do século XIX, O Leopardo conta a fascinante história de uma aristocracia siciliana decadente e moribunda, ameaçada pela aproximação da revolução e da democracia. 

O Leopardo era o animal que figurava no brasão da família de Dom Fabrizio, (Personagem principal), um italiano, Príncipe de Salina. Lampedusa escolhe, talvez, a figura do Leopardo, não só pelo seu individualismo – característica que tem em comum com o príncipe de Salina – como pela sua adaptabilidade, algo que é fundamental para a manutenção do status do protagonista e da sua família. 

Logo abaixo dos Leopardos, dos Leões, estão as raposas, os chacais, as hienas, cuja astúcia desprovida de escrúpulos, aliada a uma fortíssima motivação para vencer fazem da burguesia em ascensão uma classe para a qual os fins justificam os meios na sua rota de ascensão em direção ao topo da escala social: Agiotas, banqueiros, especuladores ou, simplesmente, grandes industriais que enriquecem misteriosamente de um momento para o outro. A ambição deste tipo social esbarra, porém, com o conservadorismo dos Leões e dos Leopardos que demoram, ainda, algumas gerações antes de os considerarem como seus iguais. 

Em maio de 1860, meados do século XIX, o revolucionário Giuseppe Garibaldi desembarca na ilha Marsala para liderar o movimento de unificação da Itália. Giuseppe Garibaldi chefia “Os descamisados”, ou simplesmente, “Os camisas vermelhas”. O objetivo é a reunificação da Península Itálica, a expulsão dos Bourbons - cuja pretensão de hegemonia, partindo de Nápoles de onde reina a dinastia Bourbon, irrita de sobremaneira os italianos – e sua substituição pela dinastia rival de Piemonte, apoiando Vítor Emanuel da casa de Sabóia. 

Assumindo como seus os ideais da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – as tropas de Garibaldi pretendem o estabelecimento de uma nova ordem social ao defender a igualdade de oportunidades como o principal objetivo da revolução. Recebem, por isso, o apoio direto de uma classe em franca ascensão: Uma burguesia endinheirada que lucra em progressão geométrica com o endividamento galopante de uma nobreza dissipadora e cada vez mais passiva. A classe aristocrática sente que está próxima do fim de sua supremacia. 

Então Don Fabrizio assiste com distância e melancolia ao final dos combates! A adaptabilidade do Leopardo Fabrizio Salina impele-o a ser condescendente, flexível, com a nova classe em ascensão, cujo poder econômico poderá ajudar a sua família a manter o padrão de vida ao qual está habituada.

Dom Fabrizio, começa a perceber as mudanças na sociedade e a notar a futilidade de sua vida nesse momento histórico onde há uma decadência de sua classe, de seus costumes e do surgimento de uma nova ordem. Fabrizio deixa que a vida passe enquanto assiste à decadência da monarquia italiana, sem fazer qualquer esforço para interferir ou inserir-se no novo contexto que se delineia. 

Dom Fabrizio, desinteressado na vida política, acredita que as coisas têm que mudar, mas permanece como um espectador: Observa o fim de sua era solitário, resignado e pessimista. O Leopardo é irônico, direto e impactante. Dom Fabrizio se mostra extremamente pessimista com o futuro de sua terra, que ele considera quente demais, medíocre demais e preguiçosa demais, e por isso sempre fica a parte das decisões históricas. Suas ambições são continuadamente reduzidas, em simultaneidade com o esvaziamento da própria significação da nobreza, tornando os atos da mesma cada vez mais fúteis e desnecessários. 

Completamente cético quanto a importância de sua posição perante as mudanças políticas, Don Fabrizio apenas segue o curso da história cumprindo o mote aparentemente contraditório: "É preciso que as coisas mudem de lugar para que permaneçam onde estão"! 

Além da figura marcante de Don Fabrizio, há também a representação da nova classe social em Don Calogero que casará sua linda filha Angélica com Tancredi, sobrinho e favorito do príncipe. As interações/conflitos entre as duas classes resultam em momentos de muito humor, sobretudo. Outros aspectos possuem um forte apelo visual, como por exemplo, o momento da chegada da família aristocrática em Donnafugata, cobertos de poeira acumulada durante a longa viagem, figuras irreais e obsoletas no novo cenário da Itália unificada. 

Sendo assim, a própria história da ilha, marcada por sucessivas invasões de todos os quadrantes do mediterrâneo, tem como consequência o desenvolvimento de um sentimento coletivo de indiferença por quem se encontra no poder! 


O autor: 

Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, duque de Palma e príncipe de Lampedusa, nasceu em Palermo, em dezembro de 1896, e faleceu em Roma, em julho de 1957. Dedicou-se à escrita apenas nos últimos anos da sua vida, no tranquilo isolamento da sua propriedade, sem contacto com o meio literário. O Leopardo, a sua obra-prima, foi o único romance que escreveu. Inicialmente recusado por duas grandes casas editoriais italianas, viria a ser publicado um ano e meio após a morte de Lampedusa, tendo um sucesso imediato junto do público e da crítica, que o considerou uma das maiores obras literárias do século XX. Traduzido em todas as línguas, O Leopardo é já um clássico incontornável da literatura. 

O autor buscou sua inspiração nas histórias de sua antiga família e, em particular, na vida de um seu antepassado que viveu nos anos cruciais do Risorgimento, no reinado de Francisco II das Duas Sicílias. 

Obs: Se procura filme italiano de 1963, dirigido por Luchino Visconti, veja II Gattopardo (filme). II Gattopardo narra a história do ancestral do autor, Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, e de sua família entre 1860 e 1910, na Sicília. 

Personagens: Fabrizio Salina: O protagonista, é a fusão entre a cultura alemã, herdada da mãe – o racionalismo, o apego às normas e à ordem, traduzidas no fascínio pelas leis da física, nomeadamente da astronomia – e a indolência e fogosidade italianas como legado paterno. Sendo um homem dotado de inteligência (Muito) acima de média no seu grupo de pares – que se caracteriza, sobretudo pela frivolidade ideológica a par de uma extrema sensibilidade estética – Fabrizio estaca-se do seu grupo. É, antes de tudo, graças ao seu encanto pessoal que, mais do que a sua irrepreensível genealogia, o Leopardo Salina não é segregado pelos seus iguais que o consideram algo excêntrico, inspirando-lhes um misto de admiração e receio. Fabrizio Salina é, ainda, um homem sensual, propenso a grandes paixões, cujo temperamento esbarra com a castradora religiosidade da sua aristocrática esposa, Stella.  
Stella: A princesa di Salina, é perfeita na estrita observância do profundo respeito pelas convenções, das normas de etiqueta e do saber-estar. No entanto, o seu fervor religioso, manifesto até durante o ato sexual, assim como a sua frivolidade, acabam por exasperar o marido e esfriar a sua paixão inicial. 

Tancredi: O príncipe Di Falconeri, sobrinho de Fabrizio, é um jovem belo, inteligente, dotado de um humor colorido de um sarcasmo afetuoso, dirigido ao Zio Fabrizio – “Zione” (Tiozão), como lhe chama o sobrinho – o qual não resiste àquela descarada ironia que tem as suas raízes numa juventude que se crê imortal. A inteligência de Tancredi está ligada ao seu sentido de oportunidade, à astúcia felina (Ou de ave predadora) que lhe permite realizar um casamento vantajoso, salvando-o da ruína e, ao mesmo tempo, realizar o desejo de possuir a bela e voluptuosa Angélica, filha de um novo-rico, recentemente promovido a barão e com pretensões aristocráticas. É, também, o mesmo materialismo de Tancredi que o faz transitar habilmente do partido dos “Camisas vermelhas” para o exército real.

Angélica: É uma jovem de origem humilde, que tem acesso a uma educação refinada, em virtude do enriquecimento meteórico do pai. Apesar de, no início, o verniz da educação e o refinamento da toilette não conseguirem ocultar totalmente a sua origem camponesa. Contudo, Angélica acaba por ser uma lufada de ar fresco dentro de uma aristocracia debilitada por sucessivos casamentos consanguíneos, maus hábitos alimentares, ausência de vida ao ar livre e falta de exercício físico. Apesar de alguns pequenos deslizes no que toca à etiqueta e ao protocolo, Angélica é inteligente, ativa, uma jovem que se torna culta e interventiva no que diz respeito a causas sociais e na defesa dos direitos das mulheres. É a única personagem feminina que consegue conservar a beleza e o encanto até à velhice, preservando, até depois da morte de Tancredi, a vivacidade da juventude. 

Irmãs Salinas: Filhas de Fabrizio e Stella, estiolam pelo excesso de rigidez a que as obrigam as expectativas daqueles que as rodeiam, mercê do seu estatuto. Tornam-se demasiadamente tímidas e recatadas para inspirarem verdadeira paixão. A sua frieza e aparente indiferença acabam sempre por “Gelar o sangue” aos seus pretendentes. 

Fontes: Pequeno trecho do site http://www.recantodasletras.com.br
Outros trechos de vários sites e montagem totalmente minha.